quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Há 500 anos, Martinho Lutero publicava suas 95 teses

Há 500 anos, Martinho Lutero publicava suas 95 teses

Ao criar um racha no cristianismo ocidental, a Reforma Protestante mudou radicalmente a paisagem política e cultural do continente europeu

Reinaldo José Lopes


Quem vive no século 21 costuma ter dificuldade para entender a obsessão dos antigos europeus com o fim do mundo. Para um ex-monge que viveu no século 16, porém, era difícil não acreditar que o Apocalipse estivesse chegando.

Ele deixou isso claro ao comentar o livro do profeta Daniel - um dos textos bíblicos que preveem o fim do mundo. "Tudo aconteceu e está consumado", escreveu Martinho Lutero por volta de 1530. "O Sacro Império Romano-Germânico está no fim, os turcos batem à porta, o esplendor do papismo se desvaneceu e o mundo está rachando por toda parte, como se fosse cair aos pedaços."

Se ainda estivesse vivo, é possível que Lutero ficasse decepcionado com a demora para que o Apocalipse ocorresse. Mas ele não forçou tanto a barra ao afirmar que o fim estava próximo.

Wikipedia Commons / Jorge Royan
Estátua de Martinho Lutero em frente à Igreja Luterana Frauenkirche, localizada em Dresden, Alemanha

Graças ao ex-monge alemão e a uma geração de reformadores religiosos, um mundo, pelo menos, já tinha acabado: aquele que, durante mais de 1100 anos, unira os cristãos do Ocidente. No lugar de uma só igreja, monolítica, dominada pela supremacia do papa em Roma, metade da Europa Ocidental foi sendo tomada por igrejas que consideravam a velha tradição católica como uma corrupção inaceitável dos ideais cristãos. 

Esse desejo de renovação espiritual foi um dos pilares da Reforma Protestante. Mas como ela escapou de virar apenas outra "heresia" esmagada pela Igreja? O contexto histórico ajudou.

Alguns camponeses, por exemplo, viram na Reforma a chance de corrigir injustiças do sistema feudal. Enquanto isso, no topo da sociedade européia, nobres sentiram que o grito dos reformadores era um ótimo pretexto para arrancar o poder de papas, cardeais e arcebispos. A mistura de intenções puras e objetivos interesseiros ajudou a Reforma a ir longe e redefiniu o mapa da Europa.
Tremor nas fundações
No começo do século 16, falar em "reforma" era conversa velha. Fazia centenas de anos que os intelectuais e místicos europeus malhavam a bagunça generalizada que parecia ter tomado conta da Igreja.

"Na Idade Média, a palavra reformatio estava na boca de todos, assim como ocorre hoje com a palavra ‘democracia’. E se caracterizava pela mesma multiplicidade de significados", diz o holandês Heiko Oberman, um dos grandes estudiosos da Reforma, no livro Lutero: o homem entre Deus e o Diabo.

Os críticos atacavam a vida de riqueza e decadência dos líderes católicos e ficavam exasperados com a maneira como os altos cargos da hierarquia eclesiástica (que muitas vezes eram acompanhados pela posse de ricos feudos) viravam moeda de troca política.

Mas o hábito que provavelmente mais escandalizava os intelectuais era a venda de indulgências. Com doações à Santa Sé, os cristãos mais abastados podiam, através de rezas por encomenda, reduzir o tempo no Purgatório e agilizar sua ida ao Paraíso - era quase como comprar um lugar no céu.

Todos os defensores da tal reformatio, entretanto, queriam corrigir o cristianismo de dentro para fora. Quebrar a unidade da Igreja era algo quase impensável. "Havia dissidências, mas elas geralmente eram localizadas, excessivamente diversificadas e sem coordenação", diz Euan Cameron, professor de Religião da Universidade Columbia, nos Estados Unidos. 
Cenário favorável
Quem deu uma mãozinha para tornar o reformismo mais radical foi o Renascimento. Com o declínio da Idade Média na Europa, a filosofia e a arte da Antiguidade estavam sendo redescobertas por estudiosos. Isso incluía os pensadores do começo do cristianismo e o texto original da Bíblia.

Era a primeira vez em muito tempo que os acadêmicos da Europa Ocidental tentavam ler os Evangelhos em grego ou o Antigo Testamento em hebraico, deixando de se guiar apenas pelas versões em latim preferidas pela Igreja. Os textos antigos faziam seus leitores repensar as bases da própria fé e comparar o passado "santo" do cristianismo com seu presente mundano. O meio universitário europeu permitia uma certa liberdade para discutir esses temas.

Além do Renascimento, profundas mudanças sociais completavam o cenário favorável à Reforma. Com o desenvolvimento do capitalismo, surgia um mercado europeu dinâmico, envolvendo banqueiros, artesãos e comerciantes que queriam se ver livres de amarras políticas e religiosas para negociar. Especialmente na Alemanha, a terra natal de Lutero, muitas regiões começavam a se ver mais como parte de uma grande nação alemã que como membros do velho Sacro Império (que se estendia da França à atual República Checa), muito influenciado pelo papado.

Confusão na porta
Num ambiente cheio de insatisfação com a Igreja, quem deu o primeiro passo para uma mudança séria foi um monge alemão com doutorado que dava aulas na Universidade de Wittenberg.

Nascido em 1483, Martinho Lutero era filho de um camponês que enriquecera ao se tornar empresário da área de mineração. Contrariando os interesses do pai, que queria fazer dele advogado, Lutero decidiu entrar para um convento ao escapar com vida de uma tempestade de raios.

O jovem se tornou um monge exemplar. Apesar disso, sua consciência vivia atormentada. Ele temia a justiça de Deus, acreditando que os seres humanos eram tão pecadores que jamais seriam capazes de alcançar a salvação.

Estudando a Bíblia, ele concluiu que os cristãos só poderiam ser salvos pela fé: incapazes de se redimir por sua força interna ou por suas boas ações, os fiéis receberiam a salvação por meio da generosidade gratuita de Deus.
O papa contra-ataca
Roma demorou para formular uma resposta abrangente contra a ameaça da Reforma. Nos anos 1530, o Vaticano convocou uma comissão de religiosos de alta competência teológica e reconhecida moralidade para produzir um relatório sobre o que deveria mudar na Igreja.

"O relatório, chamado de Consilium de Emendenda Ecclesia e apresentado ao papa em março de 1537, foi uma bomba", escreve o historiador britânico Eamon Duffy no livro Santos e Pecadores - História dos Papas. A comissão disse que a culpa pela Reforma era do próprio Vaticano e listou uma série de medidas draconianas para botar a casa em ordem.

Em termos de teologia, o texto chegava até a dar razão a Lutero em alguns pontos. Como dizia o cardeal inglês Reginald Pole, um dos autores, "os hereges não são hereges em tudo".

O próprio Lutero, aparentemente adorando tudo aquilo, fez questão de publicar uma tradução em alemão, com suas próprias - e irônicas - notas de rodapé. A coisa pegou tão mal que o relatório acabou arquivado.

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Concílio de Trento

Mas a Igreja continuou seus planos de reforma interna com o Concílio de Trento, reunião realizada entre 1545 e 1563 na cidade italiana de mesmo nome. Nele, os católicos fizeram questão de não ceder um milímetro na parte doutrinária, teológica e organizacional, reafirmando coisas como o uso de imagens, a devoção a Maria e aos santos e a autoridade do papa.

Mas, ao mesmo tempo, o Vaticano fez um esforço sincero para elevar o nível cultural e moral dos padres: foi nessa época que surgiram, pela primeira vez, seminários sérios - em que os futuros padres eram educados com rigor.

Além disso, houve um impulso poderoso para converter povos que nunca tinham tido contato com o cristianismo. Por meio dos jesuítas e outros grupos missionários, a Igreja transformou a América Latina num domínio totalmente católico - e conseguiu inúmeras conversões na Índia, na China, no Japão e nas Filipinas. Pelo menos em termos populacionais, o catolicismo parecia ter perdido parte da Europa para ganhar o mundo.
As 95 teses
Se o raciocínio de Lutero estava correto, a prática das indulgências era ainda pior do que se costumava acreditar. A Igreja estaria basicamente fazendo propaganda enganosa, já que não teria poder para amenizar os pecados - cujo julgamento caberia apenas a Deus.

Em 1517, Lutero escreveu uma lista de críticas sobre as indulgências, num texto que ficaria conhecido como as 95 Teses. Elas foram pregadas na porta da igreja do castelo de Wittenberg, à vista de todos.

"O conteúdo teológico do documento não é especialmente importante. Sua importância vem do fato de que alguns editores com visão de negócios mandaram imprimi-lo, sem perceber que estavam instituindo uma revolução nas comunicações", diz Robert Kolb, professor de Teologia Sistemática do Seminário Concórdia, nos Estados Unidos.

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Primeira página da impressão de 1517 das 95 Teses, distribuída no formato de panfleto
Por volta de 1520, as 95 Teses e outros textos de Lutero tinham alcançado a incrível tiragem de 600 mil exemplares. Nada menos que 20% dos panfletos publicados na Alemanha entre 1500 e 1530 foram assinados pelo monge encrenqueiro - é como se, hoje em dia, um completo desconhecido passasse a ter o blog mais acessado do país.

Em semanas, boa parte dos intelectuais da Europa ficou sabendo da polêmica. Muitos se puseram do lado de Lutero. Já a Igreja recusou o debate teológico proposto pelo religioso e o ameaçou de excomunhão em 1520. Lutero não quis se retratar.

No ano seguinte, ele foi chamado diante do imperador Carlos V e da Dieta (algo como a câmara dos deputados) do Sacro Império. Continuou irredutível. A partir daí, embora tenha conseguido escapar, ele se tornou um herege condenado à morte.
Templos modernos
Após passar uma temporada escondido, Lutero voltou a dar aulas em Wittenberg, protegido pelo príncipe Frederico III da Saxônia. Dizia que só a Bíblia podia ser considerada a palavra de Deus e que todos os cristãos eram sacerdotes.

Não tão longe dali, outra voz se erguia contra a Igreja. Na década de 1520, o padre Ulrico Zwinglio tinha lançado na Suíça um ataque às indulgências parecido com o de Lutero e também defendia a supremacia da Bíblia sobre as autoridades eclesiásticas. Zwinglio se tornou um dos líderes políticos de Zurique e acabou com a veneração de imagens de santos e com a música nas cerimônias religiosas.

Alguns cantões suíços se uniram a Zurique, enquanto outros declararam guerra aos "hereges". O próprio Zwinglio acabaria morto em combate, em 1531.
Na Alemanha, alguns defensores das idéias de Lutero, como o padre Thomas Müntzer, começaram a interpretar a Reforma de um ponto de vista social. Afinal, se o único rei verdadeiro era Deus, por que continuar obedecendo à realeza?

Camponeses, plebeus e até nobres se uniram a Müntzer e pegaram em armas. Entre 1524 e 1525, a Guerra dos Camponeses virou a Alemanha de pernas para o ar. Os nobres conseguiram massacrar os rebeldes - e foram apoiados por Lutero, que recusava o uso da violência defendido por Müntzer e considerava heréticas certas práticas dos revoltosos, como o batismo de adultos que já tinham sido batizados quando bebês.
O anglicanismo
As nações de língua alemã não eram as únicas a sofrer a influência dos reformistas.

Nas décadas de 1520 e 1530, por exemplo, o luteranismo se tornou tão influente na Escandinávia que acabou levando a um rompimento da região com Roma. Já na Inglaterra, o rei Henrique VIII (tão católico que chegara a escrever um tratado contra Lutero), queria que o papa anulasse seu casamento com Catarina de Aragão.

O problema é que a rainha era tia do líder do Sacro Império, Carlos V, a quem o papa não queria desagradar. Em 1533, persuadido por conselheiros com inclinações protestantes, Henrique VIII resolveu se divorciar sem autorização papal. Nascia aí a Igreja Anglicana, cuja liderança coube ao rei britânico.

"Anos antes, a Reforma na Inglaterra parecia impossível, mas acabou se instaurando", diz o historiador Christopher Haigh, da Universidade de Oxford, na Inglaterra. A nova religião começou quase como um catolicismo sem papa, mas foi sendo cada vez mais influenciada pela Reforma, até ficar no meio do caminho entre protestantismo e catolicismo.

O calvinismo
O último golpe contra a antiga unidade cristã veio da França. Lá, um advogado chamado João Calvino desenvolveu doutrinas ainda mais radicais, que não só rejeitavam a autoridade do papa e a missa como consideravam que Deus predestinava apenas certas pessoas para a salvação.

A partir de 1536, Calvino refugiou-se em Genebra, na atual Suíça, e, após vencer diversos conflitos, instituiu um sistema de governo dominado por sua visão do cristianismo. A cidade se tornou um centro de formação de missionários protestantes.

Enquanto isso, na Alemanha de Lutero, nobres rompiam com a Igreja e aproveitavam para tomar suas terras e riquezas. Para brecar a onda de mudanças, o imperador Carlos V deu início a uma guerra civil no Sacro Império.

Sem conseguir vencer pelas armas, ele assinou um acordo com os luteranos: a Paz de Augsburgo, em 1555. Graças a ela, cada príncipe ficou livre para determinar a religião de seu território. A divisão da Europa cristã em duas tinha acabado de virar lei.


Nos 100 anos seguintes, guerras religiosas ainda matariam muita gente na Europa. Lutero, contudo, não viveria para ver a Paz de Augsburgo nem o sangue derramado depois. Casado com a ex-freira Katharina von Bora, ele morreria em Eisleben, sua terra natal, em 1546.

Fonte:http://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/ha-500-anos-martinho-lutero-publicava-suas-95-teses.phtml#.Wfsg2VRSw2w

sábado, 2 de setembro de 2017

A Segunda Guerra e suas causas



As  Causas

Os primeiros dez anos que se seguiram ao fim da Primeira Grande Guerra foram anos de ilusão, da Ilusão da Paz.
Se o mundo, após a Primeira Guerra Mundial, sofreu mudanças drásticas, com o surgimento de novo eixo político económico na Amé­rica do Norte (EUA) e na Ásia (Japão), as antigas potências coloni­ais assistiram ao início dos movimentos nacionalistas afro-asiáticos de contestação ao sistema colonial criado, a partir de fins do século XIX.
Os países perdedores, em especial a Alemanha, viram suas colónias e fontes de matérias-primas, bem como áreas de investi­mento, serem tomadas.
Na Ásia, o imperialismo japonês fora momentaneamente detido pela Conferência de Washington (1921-1922), instrumento de pres­são norte-americana.
A URSS, se "promovia à categoria de grande potência", exatamente quando o Mundo Capitalista entrava na mais grave crise de sua História.
A Crise de 1929 e a Grande Depressão que se seguiu acentua­ram tais antagonismos latentes, provocando a necessidade de reartículação no quadro internacional, o que terminou produzindo a Segunda Grande Guerra,
A Crise deve ser entendida como o principal fenómeno desencadeador da guerra, uma vez que:
1) as medidas tomadas pelos diversos países, no sentido de combater a Crise, aumentaram os antagonismos, provocando cres­cente nacionalismo económico (o ideal da auto-suficiência) e o cres­cimento da indústria bélica (um dos meios para se manter a taxa de acumulação de capital e permitir oferta de empregos);
2) os países capitalistas também recorreram ao estabelecimento de altas barreiras alfandegárias, o que aumentou a disputa por mer­cados consumidores, matérias-primas e áreas de investimento;
3) criou-se um clima de disputa internacional que afetou mais a Alemanha, a Itália e o Japão do que os EUA, a Inglaterra e a França;
4) nos países mais diretamente afetados pela crise económica, a ameaça de revolução social e a impossibilidade de sair da crise, através de pacífica expansão económica externa, levaram ao poder grupos agressivos da extrema direita ligados ã grande indústria(Japão e Alemanha) ou reforçaram a posição dos setores conserva­dores já estabelecidos no poder (Itália).

No plano internacional ocorreu uma clara divisão entre os países capitalistas, formando-se dois grupos que, aos poucos, tenderam a solidificar-se na medida em que as rivalidades se acentuavam:
1) Alemanha,Itália e Japão, unidos, apesar de pequenas divergên­cias de interesses;
2) Inglaterra, França e EUA, vinculados estreitamente, especialmente ingleses e franceses, temerosos do renascimento do militarismo alemão.

A URSS congregava contra si a hostilidade geral, daí suas tentati­vas no intuito de estabelecer uma frente internacional antifacista. Como as democracias capitalistas se negaram a formalizar qual­quer acordo, estabeleceu com a Alemanha, nas vésperas da guer­ra, o Pacto Germano-Soviético de Não-Agressão, que adiou a en­trada do Estado Soviético no conflito.
Tal conjuntura explica a "escalada" alemã para a guerra, prin­cipalmente quando da ascensão de Hitler ao poder, em 1933, e da anterior vitória da facção militarista no Japão (1931).


Escalada para a Guerra

1) atingido pela crise economica e governado pelos setores mi­litares ultranacionalistas, o Japão invadiu e conquistou a Manchúria (1931-1932).
2) a partir de 1935 começou a ser reconstruído o exército alemão, a frota de guerra, a aviação de guerra etc.;
3) em 1935"a Itália invadiu a Etiópia, cuja conquista foi comple­tada no ano seguinte;
4) em 1936, as tropas alemãs remilitarizaram a Renânia, declarada desmilitarizada pelo Tratado de Versalhes. As potências ocidentais perderam a ocasião de deter o avanço nazista;
5) nesse mesmo ano a Alemanha e a Itália intervieram na Guer­ra Civil Espanhola ao lado das tropas do ditador Franco, sem que as de­mais potências ocidentais abandonassem sua "neutralidade".
6) em outubro de 1936, Mussolini e Hitler formaram o Pacto Ítalo-Germánico (Eixo Roma—Berlim)',
7 em 1936 a Alemanha assinou, com o Japão e a Itália, o Pacto Anti-Komintem, secretamente dirigido contra a URSS, embora pu­blicamente afirmasse o compromisso de combater o comunismo internacional;
8) em 1937 o Japão Invadiu a China, iniciando um conflito só terminado em 1945;
09) em 1938 a Áustria foi anexada ao Terceiro Reich (o Anscliluss), preparada há muito pela existência de um partido nazista austrí­aco.
10) O imperialismo alemão voltou-se, então, contra a Tchecoslouáqttia, exigindo a anexação das populações alemãs dos Sudetos, ao norte da Boémia.
11) Hitler reivin­dicava a anexação de Dantzig e priiiilégios no "corredor polonês", le­vando a Inglaterra a oferecer garantias totais à Polónia, Grécia, Roménia e Turquia.
Em 1a de setembro de 1939, a Polónia Joi invadida, sem formal declaração de guerra, pela Alemanha. Dois dias mais tarde, a Inglaterra e a França declararam guerra à Alemanha. Iniciava-se a Segunda Guerra Mundial.

AS FASES DA GUERRA

1ª fase (setembro de 1939 a junho de 1942} - Marcada pela expansão vitoriosa do Eixo.
As fulminantes ofensivas nazistas (Blitzkrieg ou "guerra-relâmpago"), na Europa, resultaram na ocu­pação da Bélgica, Holanda, Noruega, Dinamarca e parte da Fran­ça;
O restante do território francês ficou submetido ao governo colaboracionista do marechal Pétain: era a França de Vichy.
Por algum tempo a Inglater­ra prosseguiu sozinha a luta contra o Eixo. Vivendo sob a ameaça de Invasão, sofreu pesadas perdas devido à campanha submarina alemã e a bombardeios aéreos (1940).
Na Europa Oriental, os soviéticos ocuparam a Estónia, Letónia. Lituânia, parte da Polónia, a Bessarãbia (Roménia) e o istmo da Carélia, na Finlândia, considerados áreas de segurança, em face de inevitável conflito com a Alemanha.
O conflito ampliou-se com a dupla ofensiva italiana no Norte da África e nos Bálcãs contra a Grécia; o fracasso dessas operações militares obrigou a intervenção alemã.
Nos Bálcãs, os nazistas dominaram a lugoslávia e a Grécia, enquanto governos-satélites se constituíram na Roménia, Bulgária e Hungria.
Na África do Norte, o "Afrika Korps" do general Rommel invadiu o Egito.
No Extremo Oriente, os japoneses apoderaram-se do Norte da China e da Indochina, cujas bases navais e militares serviriam para a expansão pelo Sudeste Asiático e Pacífico Sul.
Em 1941, dois acontecimentos, a longo prazo, selaram a sorte do Eixo: a invasão da URSS pela Alemanha e o ataque japonês à base norte-americana de Pearl Harbour (Havaí).
Em Início de 1942, o Eixo atingiu sua distensão máxima: na Euro­pa, a tríplice ofensiva nazista atingira Leningrado, Moscou e Estalingrado
na África, o Afrika Korps aproximava-se do canal de Suez;
na Ásia, os japoneses conquistaram a Malásia, Filipinas, Indonésia e Birmânia, preparando-se para invadir a índia e a Austrália.
2ª fase (junho de 1942 a fevereiro de 1943) - marcada pela con­tenção do Eixo e início da contra-qfensiua dos Aliados, o que represen­tava uma reviravolta total, decorrente do poderio dos EUA e da URSS.

Em junho de 1942, os norte-americanos paralisaram a ofensiva nípônlca contra o Havaí,  derrotando os japoneses na batalha de Mldway. Nova vitória dos EUA ocorreu em Guadalcanal (ilhas Salomão), frustrando a tentativa japonesa de conquistar a Austrália.
No mesmo ano. os soviéticos cercaram o poderoso exército ale­mão que atacava Estalingrado,
Essa vitória pôs fim ao mito da invencibilidade alemã e representou o início de violenta contra -ofensiva soviética.
No Egito, os ingleses derrotaram o Afrika Korps.


3º fase - (março de 1943 a setembro de 1945) - Caracterizada pela derrota do Eixo.

Após conter o avanço da Eixo, os Aliados passaram à ofensiva, desenvolvida prioritariamente contra a Alemanha: sabia-se que os alemães preparavam terríveis engenhos de guerra, alguns dos quais começavam a utilizar (as bombas VI e V2 )
Na África do Norte, o Afríka Korps foi cercado na Tunísia pelo avanço convergente das tropas norte-americanas de Eisenhower e britânicas de Montgomery, sendo obrigado a capitular.
A ocupação do Norte da África facilitou a invasão da Sicília e o desembarque na Itália, onde Mussolini foi deposto.
Apesar da rendição incondicional da Itália (8 de setembro de 1943), a maior parte do país estava em poder dos alemães. E opuseram forte resistência aos Aliados, entre os quais estavam contingentes terrestres e aéreos do Brasil.
Nova frente contra a Alemanha foi aberta com a inuosão da Fran­ça: desembarques na Normandia (norte) e Provença (sul). A liberta­ção da França foi seguida de invasão da Alemanha no início de 1945.
Na Europa Oriental, os soviéticos, desde 1943, lançaram vio­lentas ofensivas, forçando a rendição da Finlândia, Bulgária e Hungria. Prosseguindo sua ofensiva, o Exército Vermelho ocupou a Polónia, Roménia. Tchecoslouáquia e lugosláuia, só detendo seu avanço com a conquista de Berlim (2 de maio de 1945).
No mesmo dia, os alemães renderam-se na Itália. Invadida por todos os lados, a 7 de maio de 1945, no quartel-general de Eisenhower, em Reims, e a 8 de maio, em Berlim, no quartel-general de Zhukov. a Alemanha rendeu-se incondicionalmente.
No mesmo dia, os alemães renderam-se na Itália. Invadida por todos os lados, a 7 de maio de 1945, no quartel-general de Eisenhower, em Reims, e a 8 de maio, em Berlim, no quartel-general de Zhukov. a Alemanha rendeu-se incondicionalmente.
Apesar de tenaz resis­tência oposta, também se renderam os Japoneses após o bombardeio atómico de Hiroshima e Nagasaki.

Terminou, assim, a Segunda Guerra Mundial, na qual morre­ram cerca de 50 milhões de indivíduos, dos quais 14 milhões nos campos de concentração criados pêlos nazistas.

sábado, 30 de julho de 2016

Arqueólogos revelam 'Game of Tribos' entre índios do Sul no ano 1000 d.C.


REINALDO JOSÉ LOPES - COLABORAÇÃO PARA A FOLHA - 30/07/2016

Estamos na fronteira entre o Rio Grande do Sul e Santa Catarina, por volta do ano 1000 d.C. A região Sul do futuro Brasil está sendo conquistado pelos guerreiros antropófagos tupis-guaranis.

Todo o sul do Brasil? Não –chefes habilidosos, ancestrais de grupos como os atuais caingangues, aproveitam a ameaça para consolidar seu poder, unificar tribos antes dispersas sob sua égide e construir monumentos no alto das colinas, mostrando aos invasores sua disposição de resistir até o fim.

Descontado algum exagero épico, é mais ou menos esse é o retrato revelado pelos arqueólogos que estão escavando o interior da região Sul (em especial as áreas de planalto) nos últimos anos. Os dados podem enterrar de vez a ideia de que os habitantes do planalto nessa época, os chamados proto­jês, formavam grupos pequenos e igualitários, com estilo de vida rudimentar e pouco impacto sobre a paisagem.


PROTO­JÊS DO SUL

"A ameaça externa faz com que certas estruturas políticas mais complexas emerjam", resume Jonas Gregorio de Souza, pesquisador brasileiro que é doutorando do Departamento de Arqueologia da Universidade de Exeter (Reino Unido). Junto com colegas como Rafael Corteletti, da Universidade Federal do Paraná, e Mark Robinson, também de Exeter, Souza publicou algumas das conclusões da equipe sobre o tema em artigo recente na revista científica "Journal of Anthropological Archaeology".

MONUMENTOS NO MAPA

Um dos pontos centrais da pesquisa foi o mapeamento detalhado dos locais e das datações dos monumentos da cultura proto­jê, ao qual pertenciam os ancestrais de indígenas como os caingangues e xoclengues modernos ("jê" é o termo usado para designar o grande grupo linguístico ao qual os idiomas dessas tribos atuais pertencem).

Essa análise especial revelou alguns padrões significativos (veja infográfico). Primeiro, a construção de monumentos ganha força por volta do ano 1000 d.C., época que coincide com o aparecimento de artefatos associados à cultura tupi­guarani no território tradicional dos proto­jês. Ao mesmo tempo, as estruturas monumentais –como grandes muros circulares de terra e morros artificiais– concentram-­se nas áreas onde os artefatos das duas culturas rivais não são encontrados juntos, mas onde há apenas cerâmica típica proto­jê.

Acontece que os dados obtidos por etnólogos a partir do século 19, quando as tribos da região já estavam em declínio, mas ainda eram relativamente numerosas, mostram que esse tipo de monumento era dedicado exclusivamente ao enterro das famílias dos chefes, que obtinham seu poder de forma hereditária –coisa relativamente rara entre os indígenas brasileiros. Eles mobilizavam o trabalho de membros de diversas aldeias para a construção dos monumentos e as cerimônias funerárias, além de dominar áreas relativamente extensas –quatro ou cinco grandes chefes dividiam entre si todo o planalto do Rio Grande do Sul, por exemplo.

"O papel central desses chefes, especialmente entre os caingangues, é a liderança na guerra", diz Souza. Por tudo isso, faz sentido que a gênese dos monumentos tenha acontecido justamente quando a chegada dos tupis-guaranis ­ que já tinham se expandido pelo litoral brasileiro e pelos principais rios da bacia do Paraná – colocava em risco o território tradicional proto­jê.

Nas vizinhanças dos monumentos, os pesquisadores têm encontrado tanto fornos de pedra quanto cerâmicas com resíduos de milho. O cereal, quando fermentado, servia para produzir as bebidas alcoólicas nativas, o que indica a realização de grandes festas funerárias no entorno das colinas sagradas.

O interior dos círculos artificiais não abrigava nenhuma estrutura além do sepultamento, que podia ser acompanhado por um pratinho e uma espécie de copo ­ provavelmente oferendas para o morto ilustre. Ao celebrar seus próprios ancestrais por esses meios, os chefes proto­jês provavelmente eram capazes de justificar seu direito ao poder político por meios religiosos.

Uma questão importante que ainda está em aberto é como os tupis-guaranis conseguiram avançar tanto nos territórios da regiões Sul, Sudeste e Nordeste, em especial no litoral. Os dados linguísticos e arqueológicos deixam claro que o lar original desses povos é a Amazônia, provavelmente no entorno de Rondônia. Alguns pesquisadores atribuem essa expansão à ideologia guerreira e antropófaga (na qual o principal objetivo era derrotar e devorar os inimigos), mas outras tribos do Brasil pré­cabralino também valorizavam as proezas bélicas.

Endereço da página:

http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2016/07/1797075­arqueologos­revelam­game­of­tribos­entre­indios­do­sul­no­ano­1000­dc.shtml

terça-feira, 21 de junho de 2016

Feminismo - Outras Palavras

Ao ousar fazer literatura, mulheres contestaram seu lugar social e construíram linguagem própria

Norma Telles
Publicado na edição 113 da Revista História da Biblioteca Nacional - Fevereiro 2015.

Muito antes de existirem grupos feministas organizados – desde a Idade Média – mulheres de letras, em diferentes lugares do Ocidente, procuraram desvendar sua própria história refletindo sobre gênero, tradição, inovação. Sozinhas ou dialogando com contemporâneas e antecessoras, buscavam validação, conhecer seu valor numa comunidade literária. Ao mesmo tempo, havia sempre um lado sombrio nessa tradição feminina que foi se formando. Ela era perturbadora e não triunfalista.

Desde o início da modernidade, e especialmente nos séculos XVIII e XIX, um maior número de autoras trabalhou para destituir a língua dos mecanismos de poder que as constrangiam e para opor-se aos estereótipos culturais. Foram tentativas de operar nas margens ou nas brechas da linguagem que impunha silêncio às mulheres – delas se esperava que fossem maternais e delicadas, que abrissem mão de uma história própria para se dedicarem inteiramente aos seus.

Os anjos do lar se tornavam potência do mal quando não seguiam as regras ou quando pretendiam usurpar atividades e maneiras de viver que não lhes eram atribuídas. Ideias naturalizadas dos gêneros colocaram sempre as mulheres além ou aquém da cultura. Os dons artísticos eram definidos como naturalmente masculinos. Anjos ou demônios, a elas restava o papel de mediadoras, musas ou criaturas. Nunca criadoras.

Quando o discurso sobre a “natureza feminina” se firmava, em paralelo à ascensão da burguesia, muitas mulheres não se deixaram convencer e escreveram, tanto na Europa quanto nas Américas. A posição que ocupavam na sociedade – marcada pela imposição dos padrões de gênero, pela interdição a certas áreas da linguagem e à educação formal superior, além da falta de mobilidade e de independência econômica – lhes permitiu esboçar paisagens diferenciadas.

No século XVIII, Ann Radcliffe tornou-se a autora mais popular e bem paga da Inglaterra. Considerada a inventora da literatura gótica, cria em seus romances protagonistas jovens que são, ao mesmo tempo, vítimas perseguidas por algum homem perverso disfarçado em pele de cordeiro, e também heroínas corajosas. Para Radcliffe, a trama era um pretexto para enviar suas personagens a viagens excitantes sem ofender os padrões vigentes. Capturadas pelos vilões, elas agem, porque são forçadas, mostram capacidade de decisão, de superar a ingenuidade e testar sua própria força física. Em seus romances – como Os Mistérios de Udolfo (1794) e O Italiano (1797) – as mulheres participam de aventuras e perigos que antes as ficções só reservavam aos homens.

No mesmo século, também na Inglaterra, Mary Astell e Lady Mary Montagu foram críticas cáusticas do poder masculino. Escreveram longamente sobre o funcionamento do patriarcado, mesmo sem usar este termo. Astell definiu as mulheres como categoria independente em relação aos homens. Para ela, como para inúmeras mulheres depois, o problema era de acesso à educação: os homens eram educados e negavam educação às mulheres.

Na França, no século XVII, surgiram diversos salões onde mulheres da alta burguesia, ricas e independentes, criticavam a situação feminina na sociedade, defendiam igualdade entre os sexos e o direito ao amor e ao prazer. Ficaram conhecidas como Preciosas e entre elas se destacaram a Marquesa de Rambouillet e Jean de la Forge, que escreveu O círculo das mulheres sábias (1663). Outro grupo publicou, em 1661, O grande dicionário das preciosas de Somaise. Naqueles salões desenvolveu-se uma forma de pensamento próxima ao que denominamos hoje feminismo.

Olympe de Gauges, ao contrário delas, era uma mulher do povo que se fez historiadora, jornalista e revolucionária. Escreveu para o teatro, e também artigos e panfletos que espalhava pela cidade de Paris. Defendia o divórcio e a união livre, fundou clubes de mulheres onde se discutia política e ficou famosa por escrever a Declaração dos Direitos das Mulheres e das Cidadãs – considerando que a Revolução não dera espaço para as mulheres e exigindo direitos iguais. Por ter apoiado o rei e depois os girondinos, pelo que escreveu, foi presa e condenada por Robespierre. Morreu na guilhotina.

Quando chegou à França revolucionária, a inglesa Mary Wollstonescraft, admiradora de Ann Radcliffe e partidária de ideias libertárias, já era uma filósofa e jornalista famosa. Inteligente, sedenta por conhecimento, boa observadora, reformulou várias ideias de sua época, principalmente em relação às mulheres. A conexão que faz entre o pessoal e o político torna seu trabalho instigante até os dias de hoje. Seu livro mais conhecido é Reivindicação dos direitos da mulher (1790).

A obra foi publicada no Brasil por Nísia Floresta, que fez dela uma tradução livre, adequando-a às necessidades locais. Direito das mulheres e injustiça dos homens foi o título escolhido para a adaptação, que foi lançada em 1832 e tornou-se um marco no desenvolvimento de ideias feministas em território brasileiro e fez de Floresta uma pioneira em vários campos, como na escrita e na educação.

Julia Lopes de Almeida dedica-se às diferenças de formação e aos padrões de gênero em Elles e Ellas (1910). Uma das personagens pensa ser uma boneca de carne e osso, só isso, pois sua dependência é motivo de felicidade celebrada por todos ao seu redor, e sua maior pena é pensar essas coisas sem saber articulá-las. Outra personagem comenta que as moças são criadas para mártires ou hipócritas, por isso desenvolvem sentido de inferioridade. Uma terceira diz que os filhos são educados para a liberdade, e as filhas são criadas para os rapazes. A autora constata que os homens tecem a sociedade com malhas de dois tamanhos, grandes para eles e seus pecadilhos, para que saiam e entrem facilmente, e miúdas para os delas.

A conquista do território da escrita foi longa e difícil, assim como não foi fácil romper as paredes da casa-prisão ou da prisão-textual que confinavam as mulheres submetidas a regras rígidas. Para se tornarem escritoras, precisaram superar a defasagem de educação, rever a própria socialização, encontrar um caminho para a linguagem e a atuação no mundo.

A poeta e jornalista Narcisa Amália escreve em O Garatuja, em 1889: “A pena obedece ao cérebro, mas o cérebro submete-se antes ao poderoso influxo do coração; como há de a mulher revelar-se artista se os preconceitos sociais exigem que o seu coração cedo perca a probidade, habituando-se ao balbucio de insignificantes frases convencionais?”. E em outro artigo do mesmo ano: “É sobre a pressão esmagadora da desventura que a poetisa ou a pensadora anima-se a passar da Concepção à Execução – cerrados os olhos para a multidão circundante (...) a fim de evitar a hesitação ou o desfalecimento”.

No poema Cristais Partidos, Gilka Machado – uma das fundadoras do Partido Republicano Feminino (1910) – define que ser mulher é “ficar presa aos grilhões dos preceitos sociais”. Ela expôs com ousadia os anseios das moças, escrevendo poesia erótica na qual buscava delinear não só igualdade política, como a liberdade de desejo: “Teus lábios inquietos/ pelo meu corpo/ acendiam astros.../ e no corpo da mata/ os pirilampos/ de quando em quando,/ insinuavam/ fosforescentes carícias...” (1928). De maneira similar, Maria Benedita Bormann discute, em seus romances, a vida de mulheres que “desvivem-se em carinho e afeto”, e sugere, em Lésbia (1890), que uma alternativa passa pela escrita e pela independência financeira e amorosa.

Ações e artes de mulheres fizeram desmoronar ideias arraigadas desde o início da modernidade sobre os papéis de gênero no Ocidente. Desmancharam verdades tidas como naturais e imutáveis, ampliando o que consideramos relevante em nossa herança cultural.

A literatura escrita por mulheres se mostrou um palimpsesto, porque o desenho de superfície esconde e obscurece significados diversos, profundos, menos acessíveis, menos aceitos socialmente. É uma arte que tanto expressa quanto disfarça as mil influências que informam as vidas e as dissidências que giram em torno das autoras.

Norma Telles é autora de Encantações: escritoras e imaginação literária no Brasil, século XIX (Intermeios, 2012).

Saiba Mais:

GARCIA, Carla C. Breve História do Feminismo. São Paulo: Claridade, 2011.
GILBERT, Sandra M. Rereading women: thirty years of exploring our literary traditions. New York: W.W. Norton, 2011.
MUZART, Zahidé (org.). Escritoras brasileira do século XIX. Florianópolis: Editora Mulheres, 1999.
SHOWALTER, Elaine (ed.). The Feminist Criticism. New York: Pantheon Books, 1985.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Imperialismo no século XIX
por: Prof. Ricardo Viana 


imperialismo ou neocolonialismo do século XIX se constituiu como movimento de domínio, conquista e exploração política e econômica das nações industrializadas europeias (Inglaterra, França, Alemanha, Bélgica e Holanda) sobre os continentes africano e asiático.

A partir do final do século XIX (fim de 1800), em plena expansão do capitalismo, as potências industriais do mundo enfrentavam barreiras comerciais que limitavam a venda de produtos industrializados, dificultando novos investimentos.

A solução encontrada foi conquistar novas regiões e novos mercados. Assim poderiam ter acesso a matéria-prima, a mão de obra barata e ampliar o mercado consumidor.

Neocolonialismo

Diferente do colonialismo praticado a partir do século XVI, no neocolonialismo, o povoamento não era importante, prevalecia os domínios territoriais e econômicos. O domínio territorial era feito por meio de intervenção militar. Já o domínio econômico era realizado pela interferência na vida econômica, com a imposição de tratados e acordos favoráveis aos “conquistadores”

Conferência de Berlim

Realizada em 1885, reuniu representantes de 13 países da Europa, além dos EUA, Rússia, Turquia e Japão. Esses países definiram como seria feita a “partilha” dos territórios da África e da Ásia.



A “partilha” da África e da Ásia se deu fundamentalmente no século XIX (pelos europeus), mas, continuou durante o século XX. Os Estados Unidos e o Japão ascenderam industrialmente e exerceram sua influência imperialista na América e na Ásia, respectivamente.

A “corrida” com fins de “partilha” da África e da Ásia, realizada pelas potências imperialistas, aconteceu por três principais objetivos: 1º) a busca por mercados consumidores (para os produtos industrializados); 2º) a exploração de matéria-prima (para produção de mercadorias nas indústrias); 3º) a exploração de mão de obra barata.



Mas como as potências imperialistas legitimaram o domínio, a conquista, a submissão e a exploração de dois continentes inteiros?

Missão Civilizatória

Uma das principais justificativas para o neocolonialismo era a difusão do progresso pelo mundo, que deveria ser um dever das grandes potências. Essa era a “Missão Civilizatória”.

Haviam três justificativas básicas:

1º) A “Raça Branca” era superior a ao “Negro”;
2º) A Fé religiosa tinha que ser o cristianismo;
3º) O desenvolvimento científico alcançado a partir da Revolução Industrial.


A principal hipótese para a legitimação da “Missão Civilizatória” foi a utilização ideológica de teorias raciais europeias provenientes do século XIX. As que mais se destacaram foram o evolucionismo social e o darwinismo social.

O evolucionismo social classificava as sociedades em três etapas evolutivas: 1ª) bárbara; 2ª) primitiva; 3ª) civilizada. Os europeus se consideravam integrantes da 3ª etapa (civilizada) e classificavam os asiáticos como primitivos e os africanos como bárbaros.

darwinismo social se caracterizou como outra teoria que legitimou o discurso ideológico europeu para dominar outros continentes. O darwinismo social compactuava com a ideia de que a teoria da evolução das espécies (Darwin) poderia ser aplicada à sociedade. Tal teoria difundia o propósito de que na luta pela vida somente as nações e as raças mais fortes e capazes sobreviveriam.

A partir de então, os europeus difundiram a ideia de que o imperialismo, ou neocolonialismo, seria uma missão civilizatória de uma raça superior branca europeia que levaria a civilização (tecnologia, formas de governo, religião cristã, ciência) para outros lugares.

Segundo o discurso ideológico dessas teorias raciais, o europeu era o modelo ideal/ padrão de sociedade, no qual as outras sociedades deveriam se espelhar. Para a África e a Ásia conseguirem evoluir suas sociedades para a etapa civilizatória, seria imprescindível ter o contato com a civilização europeia.


Hoje sabemos que o evolucionismo social e o darwinismo social não possuem nenhum embasamento ou legitimidade científica, mas no contexto histórico do século XIX foram ativamente utilizados para legitimar o imperialismo, ou seja, a submissão, o domínio e a exploração de continentes inteiros.