domingo, 28 de fevereiro de 2016

Imperialismo no século XIX
por: Prof. Ricardo Viana 


imperialismo ou neocolonialismo do século XIX se constituiu como movimento de domínio, conquista e exploração política e econômica das nações industrializadas europeias (Inglaterra, França, Alemanha, Bélgica e Holanda) sobre os continentes africano e asiático.

A partir do final do século XIX (fim de 1800), em plena expansão do capitalismo, as potências industriais do mundo enfrentavam barreiras comerciais que limitavam a venda de produtos industrializados, dificultando novos investimentos.

A solução encontrada foi conquistar novas regiões e novos mercados. Assim poderiam ter acesso a matéria-prima, a mão de obra barata e ampliar o mercado consumidor.

Neocolonialismo

Diferente do colonialismo praticado a partir do século XVI, no neocolonialismo, o povoamento não era importante, prevalecia os domínios territoriais e econômicos. O domínio territorial era feito por meio de intervenção militar. Já o domínio econômico era realizado pela interferência na vida econômica, com a imposição de tratados e acordos favoráveis aos “conquistadores”

Conferência de Berlim

Realizada em 1885, reuniu representantes de 13 países da Europa, além dos EUA, Rússia, Turquia e Japão. Esses países definiram como seria feita a “partilha” dos territórios da África e da Ásia.



A “partilha” da África e da Ásia se deu fundamentalmente no século XIX (pelos europeus), mas, continuou durante o século XX. Os Estados Unidos e o Japão ascenderam industrialmente e exerceram sua influência imperialista na América e na Ásia, respectivamente.

A “corrida” com fins de “partilha” da África e da Ásia, realizada pelas potências imperialistas, aconteceu por três principais objetivos: 1º) a busca por mercados consumidores (para os produtos industrializados); 2º) a exploração de matéria-prima (para produção de mercadorias nas indústrias); 3º) a exploração de mão de obra barata.



Mas como as potências imperialistas legitimaram o domínio, a conquista, a submissão e a exploração de dois continentes inteiros?

Missão Civilizatória

Uma das principais justificativas para o neocolonialismo era a difusão do progresso pelo mundo, que deveria ser um dever das grandes potências. Essa era a “Missão Civilizatória”.

Haviam três justificativas básicas:

1º) A “Raça Branca” era superior a ao “Negro”;
2º) A Fé religiosa tinha que ser o cristianismo;
3º) O desenvolvimento científico alcançado a partir da Revolução Industrial.


A principal hipótese para a legitimação da “Missão Civilizatória” foi a utilização ideológica de teorias raciais europeias provenientes do século XIX. As que mais se destacaram foram o evolucionismo social e o darwinismo social.

O evolucionismo social classificava as sociedades em três etapas evolutivas: 1ª) bárbara; 2ª) primitiva; 3ª) civilizada. Os europeus se consideravam integrantes da 3ª etapa (civilizada) e classificavam os asiáticos como primitivos e os africanos como bárbaros.

darwinismo social se caracterizou como outra teoria que legitimou o discurso ideológico europeu para dominar outros continentes. O darwinismo social compactuava com a ideia de que a teoria da evolução das espécies (Darwin) poderia ser aplicada à sociedade. Tal teoria difundia o propósito de que na luta pela vida somente as nações e as raças mais fortes e capazes sobreviveriam.

A partir de então, os europeus difundiram a ideia de que o imperialismo, ou neocolonialismo, seria uma missão civilizatória de uma raça superior branca europeia que levaria a civilização (tecnologia, formas de governo, religião cristã, ciência) para outros lugares.

Segundo o discurso ideológico dessas teorias raciais, o europeu era o modelo ideal/ padrão de sociedade, no qual as outras sociedades deveriam se espelhar. Para a África e a Ásia conseguirem evoluir suas sociedades para a etapa civilizatória, seria imprescindível ter o contato com a civilização europeia.


Hoje sabemos que o evolucionismo social e o darwinismo social não possuem nenhum embasamento ou legitimidade científica, mas no contexto histórico do século XIX foram ativamente utilizados para legitimar o imperialismo, ou seja, a submissão, o domínio e a exploração de continentes inteiros.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016


Entenda a fundação do Partido Nacional-Socialista de Hitler


Originalmente, o partido nazista se chamou Partido dos Trabalhadores Alemães e surgiu no ano de 1918



Voltaire Schilling

Fonte: www.terra.com.br




Originalmente, o partido nazista denominou-se de Partido dos Trabalhadores Alemães (Deutsches Arbeit Partei, ou DAP), cujo embrião surgira em 7 de novembro de 1918 por iniciativa de Anton Dextler, o serralheiro que convidou Hitler para associar-se à organização. Suas características básicas não deixam duvidas sobre seu compromisso com o chauvinismo, o antissemitismo e o antibolchevismo. Nele, logo se identificaram dois núcleos básicos.

O primeiro desses núcleos era de ordem ideológica, decorrente da adesão dos membros da sociedade Thule (Thule Gesellschaft), uma ordem ocultista exaltadora das virtudes raciais, também chamada de German Order, liderada pelo sumo-sacerdote Dieter Eckhart, um satanista que exerceu forte influência sobre Hitler nos seus anos de ativismo em Munique. Foi ele quem o introduziu nos meios sociais mais elevados da Bavária, assim como também financiou o jornal do partido, o Völkischer Beobachter. (*)



“No começo nós éramos apenas sete homens, hoje a Alemanha inteira nos segue”, dizia Hitler nos comíciosFoto: Getty Images

Ela tinha como símbolo a cruz suástica encimando uma mão numa espada e um dos seus intentos era substituir a Cruz de Cristo pela Cruz Gamada dos supremacistas arianos.

A mitológica Thule era uma espécie de Jardim do Éden dos povos nórdicos, habitada pelos hiperbóreos, super-homens física e mentalmente perfeitos de quem, acreditavam os adeptos, os alemães herdaram suas virtudes maiores.

Fundada em agosto de 1919 pelo aventureiro barão Rudolf von Sebottendor, seus integrantes formavam uma espécie de ‘nobreza sacerdotal’, tendo entre eles como figuras de maior nome o ideólogo Arthur Rosemberg, Max Amann, editor da revista Der Schwarze Korps da SS e quem sugeriu a Hitler dar o titulo de Minha Luta ao seu livro, Rudolf Hess, o secretário particular de Hitler, o professor Karl Haushofer, que sugeriu a Hitler valer-se da cruz suástica como símbolo do partido, o advogado Hans Frank, mais tarde governador-geral da Polônia ocupada, e o economista Gottfried Feder. Todos eles se tornaram personalidades expressivas do regime, dando-lhe alimento ideológico e mitológico.

(*) Consta que Dieter Eckhart teria dito em seu leito de morte: "Sigam Hitler, ele dançará, mas fui eu que chamei a melodia. Eu o iniciei na Doutrina Secreta, abri seus centros de visão e lhe dei os meios para se comunicar com os poderes.” (Trevor Ravenscroft, The Spear of Destiny, p. 91).

Os velhos camaradas


Outro núcleo duro do partido foi composto pelos veteranos de guerra, pelos frontkämpfer, os homens do front, que haviam servido com Hitler nas trincheiras, todos eles inconformados com o cenário do após-guerra e com as humilhações impostas à Alemanha pelo Tratado de Versalhes, tendo na vingança futura sua razão de viver.

Estavam sempre próximos ao líder desde o tempo em que ele era apenas um agitador paroquial, acompanhando-o nas manifestações de rua, nos comícios e nas atividades de proselitismo e de propaganda, como estavam ao lado dele no episódio do fracassado putsch da cervejaria, ocorrido em 1923, em Munique.

Apoiaram-no igualmente quando ele decidiu acrescentar ao partido a denominação ‘nacional-socialista’, alterando o nome da agremiação para NSDAP (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei) assim como na introdução da cruz suástica num círculo branco dentro de uma bandeira vermelha para marcar seu compromisso com a revolução social pretendida.

Hitler sempre os tratou com deferência. Eram os Alte Kameraden, seus ‘velhos camaradas’, com quem fazia questão de partilhar os canecos de cerveja nas ocasiões festivas, como a celebração do levante de 8 de novembro, anualmente comemorada em Munique ou em Nuremberg, ou no registro da ascensão dele ao poder em 30 de janeiro.

Liderados pelo ex-capitão Ernst Röhm, secundado por Heinrich Himmler, futuro chefe da SS, e por Franz Pfeffer von Salomon, o primeiro comandante das SA, além de Otto Wagener e do instável e amotinado Walter Stenes. Todos haviam militado nos corpos-francos (Freierkorps) durante as tentativas revolucionárias de 1918 e 1920, colocando-se ao lado das forças militares e do governo na luta contra a esquerda armada. Quando Hitler gostava de dizer nos comícios que ‘no começo nós éramos apenas sete homens, hoje a Alemanha inteira nos segue’, certamente era a eles a quem se referia.

O uniforme deles surgiu de um modo inesperado, pois se tratava de uma carga de camisas pardas que seriam enviadas às tropas coloniais alemãs da Namíbia, na África, mas que terminaram ficando nos depósitos dos armazéns portuários da Alemanha impedidas de embarcar pela eficácia do bloqueio naval inglês.

A estrutura da organização


Obediente à estrutura hierárquica militar, o partido tinha no Führer sua autoridade máxima, havendo uma subdivisão entre a Secretária-geral, sob comando de Martin Bormann, e a Organização Política, ao encargo do Doutor Robert Ley. Em cada uma das 42 divisões administrativas da república havia um Gauleiter, um líder regional que representava a autoridade do Führer, que, por sua vez supervisionava os lideres distritais (Kreisleiter) e os ramos menores do partido, as células (Kreis) existentes nos bairros, nas fábricas, nos quartéis, nas escolas, nas universidades, nas repartições, etc.

Enquanto a milícia do partido formava os batalhões da SA, os jovens entre 10 e 18 anos, desde 1922, organizados nos moldes do escotismo, dividiam-se entre a Hitlerjügen (inicialmente denominado de Jugendbund der NSDAP, com 2,3 milhões de integrantes, liderada por Baldur Von Schirach, editor da revista Wille zur Macht, a ‘ Vontade de Poder’), e a Deutsche Mädchen. A adesão, que nos começos era voluntária, se tornou compulsória a partir de 1936.

No transcorrer dos anos eles assumiram funções paramilitares e devido ao intenso treinamento militar a que eram submetidos foram colocados como força de reserva, atuando como bombeiros no rescaldo dos bombardeamentos e auxiliando a população a salvar-se dos grandes incêndios depois dos ataques aéreos.

Uma divisão blindada inteira da SS, a 12ª panzer, foi formada com jovens de 16 e 18 anos: a SS Hitlerjügen, com 20.540 soldados, que combateu fanaticamente na Normandia por ocasião do desembarque aliado do Dia-D, em 1944. No final do conflito, 50% deles haviam perecido em combate.

Além disto, o partido abria-se às corporações e associações profissionais. Devido ao seu discurso biologicista, recebeu enorme adesão dos médicos (nos anos 30, 43% dos doutores alemães ingressaram nas fileiras dos nazistas).

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Lá fora, a guerra. O mundo de Anne Frank


Janny van der Molen
183 páginas, R$ 34,50

Tarefa difícil a de tratar o intratável. Dos horrores vividos pela humanidade, é improvável que o genocídio nazista, ainda tão próximo de nós, deixe um dia de figurar entre os principais. Para alguns, temas tão dolorosos, vergonhosos e, assim, indizíveis devem ser trancados nas prateleiras mais altas das estantes, bem longe dos leitores miúdos. Para outros, entretanto, é justamente no compartilhamento refletido dos maiores sofrimentos que se pode vislumbrar, entre os que permanecem caminhando, a humanidade.
A escritora Janny van der Molen consegue reconstruir em linguagem muito apropriada para o público juvenil a tragédia desencadeada pela ascensão de Adolf Hitler ao poder na Alemanha, cristalizada na famosíssima trajetória da adolescente Anne Frank – judia alemã que viveu com a família na Holanda e morreu em um campo de concentração aos 15 anos de idade, em 1945. Conhecida pelas ricas anotações em diário descoberto após o conflito, Anne viveu durante dois anos em um esconderijo com a família e outros perseguidos, até que seguiu em um comboio para Auschwitz. O período do esconderijo foi ricamente documentado pela própria adolescente, e vários estudiosos recriaram o restante do percurso a partir de outros documentos e de depoimentos de pessoas que a conheceram.
O livro de Van der Molen toma liberdades narrativas para imaginar pensamentos e diálogos da personagem, aproximando os leitores do universo de uma menina feliz, inquieta e com aquela fagulha tão própria dos que querem viver e contar histórias. O corpo de Anne Frank foi maltratado e destruído pelos partidários do ódio e da intolerância. A divulgação da história da sua vida entre as novas gerações é um imperativo.

Rodrigo Elias é editor da Revista de História da Biblioteca Nacional e autor da tese "Escrever em tempos difíceis. A propósito de dois textos também políticos de Tomás Antônio Gonzaga (1768-1789)". (UFF, 2014)

sábado, 15 de agosto de 2015

A ERA VARGAS - Principais caracterisitcas

1 – O PERÍODO PROVISÓRIO (1930 – 1934):
  • Decretos-lei.
  • Nomeação de interventores.
  • Atrelamento de sindicatos ao governo.
  • Criação do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio (a cargo de Lindolfo Collor).
  • Criação de leis trabalhistas: 8hs diárias, salário mínimo, aposentadoria, férias…
  • Revolução Constitucionalista (SP – 1932):
  • Oligarquia paulista insatisfeita com exclusão do poder.
  • Classe média urbana insatisfeita com autoritarismo varguista.
  • Símbolo da luta: MMDC (Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo).
  • Objetivo: constituição.
  • Resultado: vitória militar de Vargas e convocação de eleições para a Assembléia nacional constituinte em 1933.
2 – O PERÍODO CONSTITUCIONAL (1934 – 1937):
  • A constituição de 1934:
  • Voto secreto, obrigatório, direto.
  • Voto feminino (excluindo-se analfabetos).
  • Justiça eleitoral.
  • Corporativismo.
  • Confirmação de leis trabalhistas.
  • Mandato presidencial de 4 anos.
  • 1º presidente eleito indiretamente: Getúlio Vargas.
  • Intervenção do Estado na exploração de minérios.
  • Formação de 2 correntes políticas antagônicas influenciadas pela conjuntura internacional.
  • AIB (Ação Integralista Brasileira):
  • Grupo fascista.
  • Plínio Salgado (líder).
  • Condenavam o capitalismo financeiro internacional (associado aos judeus) mas não a propriedade privada.
  • Totalitarismo, unipartidarismo e Estado centralizado forte.
  • Lema: “Deus, Pátria e Família”.
  • Saudação: ANAUÊ
  • Apoiados por setores da Igreja (combate ao “comunismo ateu”), classe média alta, empresários capitalistas e imigrantes ou descendentes de imigrantes ítalo-germânicos radicados especialmente no RS e SC.
  • ANL (Aliança Nacional Libertadora):
  • Aliança de esquerda reunindo comunistas, socialistas, democratas e simpatizantes de esquerda em geral.
  • Luís Carlos Prestes (líder).
  • Defendiam o não pagamento da dívida externa, reforma agrária e respeito às liberdades individuais (direito de greve, imprensa livre…), nacionalização de empresas estrangeiras e governo popular;
  • Getúlio coloca a ANL na ilegalidade (Jul/1935).
  • Nov/1935 - Intentona Comunista: tentativa de golpe por membros da ANL. Mal organizada, fracassou rapidamente. Seus líderes (incluindo Prestes) foram presos.
  • 1937: Divulgação do “Plano Cohen” (suposto plano comunista para tomar o poder).
  • Congresso é fechado e eleições suspensas.
3 – O ESTADO NOVO (1937 – 1945):
  • Nova constituição (1937): POLACA (constituição fascista).
  • Estado de Emergência permanente – plenos poderes ao presidente e à polícia.
  • Congresso fechado – decretos-lei.
  • Proibição de greves.
  • Censura permanente (DIP – Departamento de Imprensa e Propaganda).
  • Prisão de qualquer opositor.
  • Apoio das forças armadas.
  • Simpatia ao fascismo.
  • Ausência de qualquer partido (até a AIB foi fechada).
  • 1938 - Intentona Integralista:
  • Golpe fracassado da AIB.
  • Líderes presos.
  • Plínio Salgado exila-se em Portugal.
  • Política internacional :
  • Exploração de rivalidades para obter vantagens para o Brasil.
  • Projeto de industrialização.
  • 1942: Navios brasileiros são afundados por submarinos alemães.
  • Brasil declara guerra ao Eixo (ALE + ITA + JAP).
  • 1943: Edição da CLT (controle dos trabalhadores).
  • 1944: FEB (Força Expedicionária Brasileira) desembarca na Itália com aproximadamente 25 mil homens.
  • Luta contra o nazifascismo estabelece contradição interna: ditadura lutando ao lado das “forças pró-democracia”.
  • Diversos setores sociais começam a pedir democracia interna (entre eles a UNE, criada em 1937, os meios de comunicação, apesar da censura…).
  • Vargas convoca eleições para 1945, acaba com a censura e anistia presos políticos.
  • Vargas aproxima-se até dos comunistas para permanecer no poder.
  • Propõe uma “Lei Anti-Truste” que desagrada os EUA.
  • Em 1945, é afastado do poder pelo exército (influenciado pelos EUA), que temia uma nova tentativa golpista do presidente. Vargas retorna para São Borja e é eleito posteriormente senador por dois estados ao mesmo tempo (RS e SP).
  • José Linhares (presidente do STF) assume o poder até que as eleições tivessem transcorrido e o novo presidente assumisse.
3 – CARACTERÍSTICAS GERAIS DO GOVERNO VARGAS:
  • POPULISMO – tipo de governo que possui as seguintes características: autoritarismo, estatismo, corporativismo, culto ao líder combinado com concessões parciais a camada mais pobre da população visando obter seu apoio. Ocorreu na América Latina entre os anos 30 e 50, e tem em Getúlio Vargas, no Brasil, Juan Domingo Perón, na Argentina e Lázaro Cárdenas, no México seus mais notórios representantes.
  • O Estado era o “mediador” dos conflitos sociais.
  • Nacionalismo econômico, com criação de empresas estatais e obras públicas.
  • Intervenção do Estado na economia, inspirado no modelo do “New Deal” norte-americano.
  • Controle dos trabalhadores com criação de leis (a CLT, é um exemplo disso) e atrelamento dos sindicatos.
  • Utilização intensa de propaganda governamental e censura, com a criação da DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), que cuidadosamente “fabrica” a imagem do “pai do trabalhador”.
  • Descaso com o trabalhador rural (as leis trabalhistas não chegavam no campo).
  • Aproximação com camadas populares urbanas.
  • Incentivo ao mercado interno.
  • Recuperação do preço do café (queima de estoque).
  • Incentivos a indústria nacional (especialmente a de base durante a II Guerra Mundial), com a criação da CSN (Companhia Siderúrgica Nacional) e a nacionalização de refinarias de petróleo.

sexta-feira, 20 de março de 2015

NADA DE NOVO NO FRONT




Erich Maria Remarque


Em 1929 era publicado, na Alemanha, o livro Nada de Novo no Front de Eric Maria Remarque. Trata-se de uma obra condenatória dos horrores da Primeira Guerra Mundial, escrita por um homem que serviu no exército alemão tendo sido, inclusive, seria­mente ferido. Remarque viu de perto o morticínio das trincheiras e seu livro exerceu profunda influência sobre o pensamento pacifista. Basta lembrar que foi proibido, na Alemanha, quando os nazistas assumiram o poder.


Os trechos selecionados procuram enxergar a guerra por um outro viés, através da ótica de quem esteve no front, ameaçado permanentemente pela destruição e pela morte. O autor, na caloria, fala às gerações futuras: ''Este livro não pretende ser, libelo nem uma confissão: apenas procura mostrar o que foi uma geração de homens que, mesmo tendo escapado às granadas, foram destruídos pela guerra.''


Através do relato do soldado Paul Báumer toma-se contato não apenas com os horrores da guerra mas, também, com os so­nhos e esperanças frustradas de toda uma verdadeira "geração perdida''.






Estamos no outono. Dos veteranos, já não há muitos. Sou o ultimo dos sete colegas de turma que vieram para cá.


Todos falam de paz e armistício. Todos esperam. Se for outra decepção, eles vão se desmoronar. As esperanças são muito fortes; é impossível destruí-las sem uma reação brutal. Se não houver paz, então haverá revolução.


Tenho catorze dias de licença, porque engoli um pouco de gás. Num pequeno jardim, fico sentado o dia inteiro ao sol. O armistício virá e breve, até eu já acredito agora. Então iremos para casa.


Neste ponto meus pensamentos param e não vão mais adiante. O que me atrai e me arrasta são os sentimentos. E a ânsia de viver, é a nostalgia da terra natal, é o sangue, é a embriaguez da salvação. Mas não são objetivos.


Se tivéssemos voltado em 1916, do nosso sofrimento e da força de nossa experiência poderíamos ter desencadeado uma tempestade. Mas se voltarmos agora estaremos cansados, quebrados, deprimidos, vazios, sem raízes e sem esperanças. Não conseguiremos mais achar o caminho.


E as pessoas não nos compreenderão, pois antes da nossa cres­ceu uma geração que, sem dúvida, passou estes anos aqui junto a nós, mas que já tinha um lar e uma profissão, e que agora voltará pa­ra suas antigas colocações e esquecerá a guerra... e depois de nós crescerá uma geração semelhante à que fomos em outros tempos, que nos será estranha e nos deixará de lado. Seremos inúteis até para nós mesmos. Envelheceremos, alguns se adaptarão, outros simples­mente se resignarão e a maioria ficará desorientada: os anos passa­rão e, por fim, pereceremos todos.


Mas talvez tudo que penso seja apenas melancolia e desalento que desaparecerão quando estiver de novo sob os choupos e ouvir novamente o murmúrio das suas folhas. É impossível que já não existam a doçura que fazia nosso sangue se agitar, a incerteza, o futuro com suas mil faces, a melodia dos sonhos e dos livros, os sus­surros e os pressentimentos das mulheres. Tudo isso não pode ter desaparecido nos bombardeios, no desespero e nos bordéis. Aqui as árvores brilham, alegres e douradas, os frutos das sorveiras têm ma­tizes avermelhados por entre a folhagem; as estradas correm brancas para o horizonte, os rumores de paz fazem as cantinas zumbirem como colmeias.


Levanto-me.


Estou muito tranquilo. Que venham os meses e os anos, não conseguirão tirar mais nada de mim, não podem me tirar mais nada. Estou tão só e sem esperança que posso enfrentá-los sem medo. A vida, que me arrastou por todos estes anos, eu ainda a tenho nas mãos e nos olhos. Se a venci, não sei. Mas enquanto existir dentro de mim — queira ou não esta força que em mim reside e que se cha­ma eu —, ela procurará seu próprio caminho.


Tombou morto em outubro de 1918, num dia tão tranquilo em toda a linha de frente que o comunicado se limitou a uma frase: "Nada de novo no fronte".


Caiu de bruços e ficou estendido, como se estivesse dormindo. Quando alguém o virou, viu-se que ele não devia ter sofrido muito. Tinha no rosto uma expressão tão serena que quase parecia estar sa­tisfeito de ter terminado assim.


Remarque, Erich Maria. Nada de Novo no Front. São Paulo, Circulo do Livro, s/d, pp. 223-24.






A VIDA (?) NAS TRINCHEIRAS


A Primeira Guerra Mundial apresentou duas fases bastante nítidas: num primeiro momento, a guerra de movimento, logo se­guida, devido ao flagrante equilíbrio entre os dois lados em luta, de uma guerra de posições fixas, em que as trincheiras tornaram-se comuns. Exércitos inteiros, contando com milhares de homens en­fiados em trincheiras, separados por alguns quilómetros de dis­tância, passaram longos meses tentando avançar algumas centenas de metros.


A trincheira, verdadeira marca registrada da Primeira Guerra Mundial, é o reflexo do impasse tático, do equilíbrio de forças e da supremacia defensiva. A vida dentro delas, através de relatos de soldados ingleses, franceses, alemães, etc., era um verdadeiro in­ferno. Ainda hoje, as descrições que nos chegaram causam espanto e horror ante o grotesco do espetáculo.


Os trechos selecionados revelam com clareza o cotidiano marcado pelo medo, pela fome, pelo desespero, pela nulidade da vida, em síntese, pela degradação moral a que chegou o ser huma­no. Mas, em um ou outro relato é possível, também, perceber que alguma solidariedade, independente da cor da farda que se está usando, ainda sobrou, talvez para lembrar que, apesar de tudo, os homens ainda eram homens.


1. "A mesma velha trincheira, a mesma paisagem, Os mesmos ratos, crescendo como mato, Os mesmos abrigos, nada de novo, Os mesmos e velhos cheiros, tudo na mesma, Os mesmos cadáveres no fronte. A mesma metralha, das duas às quatro, Como sempre cavando, como sempre caçando, A mesma velha guerra dos diabos." A. A. M Une: Combate no Somme)


2. "No alto, nas linhas incompletas, os rapazes ficavam a noite toda - tinha caído muita neve e a chuva completou sua evaporação em água. (...) Uma estaca de madeira ajudara a formar uma camada de terra sobre as paredes encharcadas e um homem pode orgu­lhar-se disso: parecer parte de uma trincheira. A chuva, a chuva impiedosa, ensopando e entorpecendo — e, assim, passar a noite inteira. (...) Acabo de chegar de um lugar onde jazem 50.000 corpos, ossos e arame farpado por toda parte. Os próprios es­queletos embranqueciam se alguém saía pela colina terrivelmente atacada e destroçada. Botas e ossos saindo pelas paredes do abri­go da gente e, no entanto: lá se é feliz." (Sargento Ernest Broughton)


3. "Ainda estou atolado nesta trincheira. (...) Não me lavei, nem mesmo cheguei a tirar a roupa, e a média de sono, a cada 24 ho­ras, tem sido de duas horas e meia. Não creio que já tenhamos começado a rastejar como animais, mas não acredito que me ti­vesse dado conta se já houvesse começado: é uma questão de somenos."


(Capitão Edwin Gerará Venning, França)


4. "As rações chegam às trincheiras inglesas em pacotes de dez, em mulas, e então são levadas adiante por mulas humanas. Não foi trazida água, mas o gelo, das crateras formadas pelas bombas, foi dissolvido para esse fim. (...) Logo passou-se a usar um machado para encher os caldeirões com gelo e obter grandes quantidades de água. Nós a usamos para fazer chá durante vários dias, até que um cara notou um par de botas plantado (...) e descobriu que elas estavam enfiadas em um corpo. (...) Em geral, para dormirmos aquecidos, deitávamo-nos uns junto aos outros, dividindo os co­bertores — cada homem levava dois. O frio, no entanto, se mos­trou preferível à lama (formada com o degelo). (...) Pelo menos, podíamos nos mover." (Sargento E. W. Simon, rio Somme)


5. "O campo de batalha é terrível. Há um cheiro azedo, pesado e penetrante de cadáveres. Homens que foram mortos no último outubro estão meio afimdados no pântano e nos campos de na­bos em crescimento. As pernas de um soldado inglês, ainda en­voltas em polainas, irrompem de uma trincheira, o corpo está em­pilhado com outros; um soldado apoia o seu rifle sobre eles. Um pequeno veio de água corre através da trincheira, e todo mundo usa a água para beber e se lavar; é a única água disponível. Ninguém se importa com o inglês pálido que apodrece alguns passos adiante. No cemitério de Langermark os restos de uma matança foram empilhados e os mortos ficaram acima do nível do chão. As bombas alemãs, caindo sobre o cemitério, provoca­ram uma horrível ressurreição. Num determinado momento, eu vi 22 cavalos mortos, ainda com os arreios. Gado e porcos ja­ziam em cima, meio apodrecidos. Avenidas rasgadas no solo, inúmeras crateras nas estradas e nos campos." (De Um Fatalista na Guerra, de Rudolf Binding, que serviu nu­ma das divisões da Jungdeutschland.)


6. "Estamos tão exaustos que dormimos, mesmo sob intenso baru­lho. A melhor coisa que poderia acontecer seria os ingleses avan­çarem e nos fazerem prisioneiros. Ninguém se importa cónosco. Não somos revezados. Os aviões lançam projéteis sobre nós. Ninguém mais consegue pensar. As rações estão esgotadas — pão, conservas, biscoitos, tudo terminou! Não há uma única gota de água. É o próprio inferno!"


(De uma carta encontrada no bolso de um praça alemão na ba­talha de Somme)


7. "Ao ouvir alguns gemidos quando eu ia para as trincheiras, olhei para um abrigo ou buraco cavado ao lado e achei nele um jovem alemão. Ele não podia se mover porque suas pernas estavam que­bradas. Implorou-me que lhe desse água, eu corri atrás de alguma coisa e encontrei um pouco de café que logo lhe dei para beber. Ele dizia todo o tempo 'Danke, Kamerad, danke, danke' (Obri­gado, Camarada, obrigado, obrigado). Por mais que odeie os boches, quando você os está combatendo, a primeira reação que ocorre ao vê-los caídos por terra e feridos é sentir pena. (...) Nossos homens são muito bons para com os alemães feridos. Na verdade, gentileza e compaixão com os feridos, foram talvez as únicas coisas decentes que vi na guerra. Não é raro ver um sol­dado inglês e outro alemão lado a lado num mesmo buraco, cui­dando um do outro, fumando calmamente."


(Tenente Arthur Conway Young, França, 16 de setembro de 1916)


Roberts, J. M. (org.). História do Século XX. São Paulo, Abril, 1974, v. 2, pp. 796, 953, 960 e 961.


segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Resenha Manifesto Comunismo - Marx e Engels


RESENHA:
MARX, Karl e ENGELS, Friedrich.Manifesto do Partido Comunista. 1848
Manifesto do Partido Comunista (Manifest der Kommunistischen Partei - alemão) foi escrito pelos teóricos fundadores do socialismo científico Karl Marx e Friedrich Engels e expressa o programa e propósitos da Liga Comunista. Os autores defendiam a queda da burguesia, a soberania do proletariado, a dissolução da antiga sociedade burguesa e a fundação de uma nova sociedade sem “classes” e sem “propriedade privada”. Esse manifesto é uma análise da luta de classes e um pedido de “união” entre os operários do mundo. Este texto teve sua primeira versão publicada em alemão em 1848, somente depois foi traduzido para outros idiomas.
A introdução trata do surgimento do comunismo e como esse novo modelo de política veio “assombrar” a classe dominante européia, onde, poderosos como ”o papa e o tsar, Metternich e Guizot, radicais franceses e polícias alemães” trataram de perseguir para acabar com o ideal revolucionário que estava prestes a emergir.
O comunismo já era visto por outros poderes, como “poder”. Por essa razão os comunistas tendem a difundir as suas idéias, modo de ver e objetivos para o mundo opondo um manifesto do próprio partido à lenda do espectro do comunismo. No Manifesto do Partido Comunista, Karl Marx e Friedrich Engels difundiram de maneira simples, em formato de “Manifesto”, sua nova concepção de Filosofia e de História.
Antes de iniciar a parte I, que trata dos burgueses e proletariado é importante conceituar burguesia e proletariado. Para Engels (1888) “por burguesia compreende-se a classe dos capitalistas modernos, proprietários dos meios de produção social, que empregam o trabalho assalariado. Por proletariado compreende-se a classe dos trabalhadores assalariados modernos que, privados de meios de produção próprios, se vêem obrigados a vender sua força de trabalho para poder existir”. Esse capítulo é destinado a um resgate histórico da lutas entre classes existentes.

É histórica a desigualdade entre burgueses e proletariados, pois “a história de toda a sociedade até aqui é a história de lutas de classes”, entre opressores e oprimidos, ora oculta ora aberta, que acabaram por modificar a sociedade, e a levar ao declínio comum as classes em luta.

A idéia de classes (ou ordens sociais) existe desde a Roma antiga. Mesmo com o declínio do feudalismo, a sociedade burguesa emergente não aboliu as distinção existente entre as classes. Com isso fez surgir “novas classes, novas condições de opressão, novas configurações de luta, no lugar das antigas”. Dessa luta surgiram duas grandes classes sociais que até hoje se enfrentam: burguesia e proletariado.
Fatores sociais e comerciais, dentro do contexto histórico, desde o declínio da sociedade feudal vieram fortalecer e consolidar a classe burguesa, O descobrimento e a colonização da América, o intercâmbio com as colônias, a multiplicação dos meios de troca e das mercadorias em geral, substituição da manufatura, desaparecimento da divisão do trabalho entre as diversas corporações e o surgimento da divisão do trabalho na própria oficina singular, estão entre os fatores.
Surge a indústria moderna e com ela os ricos detentores dos meios de produção. Surge também o mercado industrial que “deu ao comércio, à navegação, às comunicações por terra, um desenvolvimento imensurável. Este, por sua vez, reagiu sobre a extensão da indústria, e na mesma medida em que a indústria, o comércio, a navegação, os caminhos-de-ferro se estenderam, desenvolveu-se a burguesia, multiplicou os seus capitais”, ou seja, fez nascer a burguesia, como resultado desse desenvolvimento da produção, e extinguiu outras classes. Simultaneamente a esses estágios de desenvolvimento obtêm-se um progresso político opressor (associação armada, comuna, impostos...). O modelo de Estado representativo surge para “administrar os negócios comunitários de toda a classe burguesa”. A burguesia tem seu papel significante na história, ou seja, revolucionário. Esse processo é entendido “numa palavra, no lugar da exploração encoberta com ilusões políticas e religiosas, pôs a exploração seca, direta, despudorada, aberta”. Ela transformou toda a sociedade em “trabalhadores assalariados pagos por ela”. Reduziu tudo a uma relação de dinheiro. Através da idéia de globalização (mercado mundial) determinou “modo cosmopolita a produção e o consumo de todos os países”. A indústria deixou de ser nacional, agora é fragmentada, onde as matérias primas são importadas de outros países do mundo. Criando dependências entre as nações (unilateralidade). Até as literaturas locais tornam-se mundiais. Através dos instrumentos de produção e da comunicação facilitada “arrasta todas as nações, mesmo as mais bárbaras, para a civilização”, tornando-as burguesas.
A burguesia cria no mundo a sua própria imagem. Ela criou os grandes centros urbanos populacionais, desqualificou a vida rural, deixando-a dependente da cidade. Centralizou “os meios de produção e concentrou a propriedade em poucas mãos”, surgindo a centralização política.
Se entende que “a história da indústria e do comércio é apenas a história da revolta das modernas forças produtivas contra as modernas relações de produção, contra as relações de propriedade que são as condições de vida da burguesia e da sua dominação”. Surge a epidemia da sobreprodução gerando diversas crises, gerando homens munidos de informação, ou seja, os operários modernos, conhecidos como os proletários.
O proletariado se desenvolve na mesma medida em que a burguesia e o capital. Esses operários modernos “só vivem enquanto encontram trabalho e só encontram trabalho enquanto o seu trabalho aumenta o capital... têm de se vender à peça, são uma mercadoria como qualquer outro artigo de comércio... igualmente expostos a concorrência e oscilações do mercado”. O proletariado perdeu sua característica autônoma e seu estímulo, através da modernização da maquinaria e da divisão do trabalho. Ele é apenas um acessório que maneja a maquinaria, ou seja, “servos da máquina, do vigilante, e sobretudo dos próprios burgueses fabricantes singulares”. O proletariado significa “força de trabalho”, seja de homens ou mulheres, porém com custos diversos e a sua “luta contra a burguesia começa com a sua existência”.
A luta começa singela, depois se estende. Dirigem seus ataques seus ataques contra as relações de produção e também contra os instrumentos de produção. Formam então uma massa dispersa dividida pela concorrência. A força tende a crescer e os interesses e situação se vida tornam-se semelhantes entre eles. Salários baixos e oscilantes colidindo as classes. Então “os operários começam por formar coalisões contra os burgueses; juntam-se para a manutenção do seu salário. Fundam eles mesmos associações duradouras para se premunirem para as insurreições ocasionais. Aqui e além a luta irrompe em motins”. Vence transitoriamente unindo-se. Entram em contato uns com os outros, centralizado as lutas nacionais em luta de classes. “Esta organização dos proletários em classe, e deste modo em partido político, é rompida de novo a cada momento pela concorrência entre os próprios operários. Mas renasce sempre, mais forte, mais sólida, mais poderosa”. Criam leis que os beneficiam e fortalece-os.
Os autores alertam também que essas duas classes se mesclam devido a interesses comuns. Afirmam que “em tempos em que a luta de classes se aproxima da decisão, o processo de dissolução no seio da classe dominante, no seio da velha sociedade toda, assume um caráter tão vivo, tão veemente, que uma pequena parte da classe dominante se desliga desta e se junta à classe revolucionária, à classe que traz nas mãos o futuro”.
Porém a burguesia não oferece subsistência para o proletariado , pois “o operário torna-se num indigente e o pauperismo desenvolve-se ainda mais depressa do que a população e a riqueza. Torna-se com isto evidente que a burguesia é incapaz de continuar a ser por muito mais tempo a classe dominante da sociedade e a impor à sociedade como lei reguladora as condições de vida da sua classe. Ela é incapaz de dominar porque é incapaz de assegurar ao seu escravo a própria existência no seio da escravidão, porque é obrigada a deixá-lo afundar-se numa situação em que tem de ser ela a alimentá-lo, em vez de ser alimentada por ele”. A condição essencial para a existência e dominação da classe burguesa esta na “acumulação da riqueza nas mãos de privados, a formação e multiplicação do capital; a condição do capital é o trabalho assalariado”.
Marx e Engels através desta análise histórica, distinguindo as várias formas de opressão social durante os séculos e situa a burguesia moderna como nova classe opressora. Não deixa, porém, de citar seu grande papel revolucionário, tendo destruído o poder monárquico e religioso valorizando a liberdade econômica extremamente competitiva e um aspecto monetário frio em detrimento das relações pessoais e sociais, assim tratando o operário como uma simples peça de trabalho ou fator de produção, alienando e reduzindo a liberdade humana à simples liberdade de consumo e não a liberdade intrínseca como valor humanista.
Após essa análise burguesia x proletariado, os autores fazem uma análise entre proletariados e comunistas. Dizem que “os comunistas não são nenhum partido particular face aos outros partidos operários. Não têm nenhuns interesses separados dos interesses do proletariado todo. Não estabelecem nenhuns princípios particulares segundo os quais queiram moldar o movimento proletário”. Diferenciam-se dos partidos proletariados “eles acentuam e fazem valer os interesses comuns, independentes da nacionalidade, do proletariado todo”. Eles tem “sobre a restante massa do proletariado, a vantagem da inteligência das condições, do curso e dos resultados gerais do movimento proletário”. E dizem que o que distingue os comunistas dos demais não é a defesa da “abolição da propriedade em geral, mas a abolição da propriedade burguesa”. Condensam a sua teoria numa única expressão: supressão da propriedade privada. Existem distinções entre sociedade burguesa e comunista, esta visa sempre o bem coletivo.
Defendem que “na sociedade comunista o trabalho acumulado é apenas um meio para ampliar, enriquecer, promover o processo da vida dos operários... e não tira a ninguém o poder de se apropriar de produtos sociais; tira apenas o poder de, por esta apropriação, subjugar a si trabalho alheio”, entre outras idéias.
Descreve os vários tipos de pensamento comunista, assim como define o objetivo e os princípios do socialismo científico. Outro ponto que legitima a justiça na vitória do proletariado seria de que este, após vencida a luta de classes, não poderia legitimar seu poder sob forma de opressão, pois defende exatamente o interesse da grande maioria: a abolição da propriedade(?Os proletários nada têm de seu para salvaguardar?).
Além disso, destaca que o comunismo não priva o poder de apropriação dos produtos sociais; apenas elimina o poder de subjugar o trabalho alheio por meio dessa apropriação. Com o desenvolvimento do socialismo a divisão em classes sociais desapareceriam e o poder público perderia seu caráter opressor, enfim seria instaurada uma sociedade comunista.
Nessa análise da literatura socialista e comunista, fazem um contexto histórico sobre o socialismo reacionário (socialismo feudal, socialismo pequeno-burguês, socialismo alemão), o socialismo conservador ou burguês, e o socialismo e comunismo crítico-utópicos. E no último capítulo (parte IV) trata sobre a posição dos comunistas para com os diversos partidos oposicionistas, chamando os proletários para a luta, com a seguinte frase: “PROLETÁRIOS DE TODO O MUNDO, UNI-VOS!”
O Manifesto sugere um curso de ação para uma revolução socialista através da tomada do poder pelos proletários, fazendo uma dura crítica ao modo de produção capitalista e na forma como a sociedade se estruturou através desse modelo.
Fonte: http://www.ebah.com.br/content/ABAAAAcb8AB/resenha-manifesto-marx-engels