História e Luz

"A única revolução possível é dentro de nós". Mahatma Gandhi

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Jean-Paul Sartre - DOS PRECONCEITOS


DOS PRECONCEITOS

Jean-Paul Sartre
Sartre tornou-se um dos maiores críticos do imperialismo francês, principalmente com relação à Argélia. Seus artigos e livros denunciando as atrocidades e, mais do que isso, procurando inter­pretar o domínio francês, valeram-lhe acerbas críticas. Mas, feliz­mente, sua voz foi ouvida por muitos. No trecho abaixo, extraído do prefácio que Sartre escreveu para um livro de fotografias de Henri Cartier-Bresson, sobre a China, podemos verificar a questão do preconceito contra os povos colonizados. O texto fala por si.
Na origem do pitoresco há a guerra e a repulsa em compreen­der o inimigo: na verdade, nossas luzes sobre a Ásia vieram inicial­mente de missionários irritados e de soldados. Mais tarde chegaram os viajantes — comerciantes e turistas — que são militares frios: o sa­que se denomina "shopping" e as violações são praticadas honrosa­mente nas casas especializadas. Mas a atitude inicial não mudou: mata-se menos frequentemente os indígenas, mas nos desprezam aos montões, o que é a forma civilizada de massacre; experimenta-se o aristocrático prazer de contar as separações. "Corto meus cabelos, ele trança os dele; sirvo-me de um garfo, ele usa palitos; escrevo com uma pena de ganso, ele traça sinais com um pincel; tenho ideias direitas, e as suas são curvas: você observou que ele tem horror ao movimento retilfneo, ele só é feliz se tudo vai obliquamente." Isso se chama o jogo das anomalias: se você encontra uma a mais, se vo­cê descobre uma nova razão para não compreender, dar-lhe-ão, no seu país, um prémio de sensibilidade. Aqueles que recompõem, deste modo, seu semelhante como um mosaico de diferenças irredu­tíveis, não precisa admirar-se, se eles se interrogam, em seguida, como se pode ser chinês.

Criança, eu era vítima do pitoresco: tinha tudo feito para tornar os chineses apavorantes. Falavam-me de ovos podres — eles os ado­ravam —, de homens cerrados entre duas pranchas, de música delica­da e dissonante. No mundo que me envolvia havia coisas e animais que chamavam, dentre todos, chineses: eles eram frágeis e terríveis, fiavam entre os dedos, atacavam por trás, explodiam-se repentina­mente em alaridos ridículos, sombras que deslizavam como peixes ao longo de um vidro de aquário, lanternas apagadas, requintes ina­creditáveis e fúteis, suplicas engenhosas, chapéus sonantes. Havia a alma chinesa, também, da qual me diziam simplesmente que é impe­netrável. "Os orientais, veja-você...". Os negros não me inquieta­vam; ensinaram-me que eram bons cães; com eles, permanecia-se entre mamíferos. Mas o asiático causava-me medo: como estes ca­ranguejos de arrozais que correm entre dois sulcos, como gafanhotos que se precipitam sobre a grande planície e devastam tudo. Somos reis dos peixes, dos leões, dos ratos e dos macacos; o chinês é um artrópode superior, ele reina sobre os artrópodes.

Sartre, Jean-Paul. De uma China a Outra. In: Colonialismo e Neo-colonialismo. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1968, p. 7-8.
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sábado, 30 de março de 2013

Segunda Guerra Mundial: Japão desafia Estados Unidos




Surpreendente ataque à base naval de Pearl Harbor, no Hawaii, sede da frota americana no Pacífico, leva definitivamente os EUA a entrarem na Segunda Guerra Mundial Foto: Getty Images
Surpreendente ataque à base naval de Pearl Harbor, no Hawaii, sede da frota americana no Pacífico, leva definitivamente os EUA a entrarem na Segunda Guerra Mundial
Foto: Getty Images

  • Voltaire Schilling
Até dezembro de 1941, podemos dizer que a Segunda Guerra Mundial era um conflito entre nações europeias. Mas, a partir de então, vai se generalizar pelas extensas regiões da Ásia. O Japão, aliado da Alemanha desde 1937, já estava envolvido com a China. Divididos entre as forças do Koumitang, liderado por Chiang Kai-shek, e do Partido Comunista, de Mao Tse-Tung, os chineses tinham dificuldades em formar uma aliança para combater o invasor.
Isso permitiu aos japoneses ocupar quase que um sexto do território, incluindo as populosas cidades do nordeste do país, como Pequim. Quando a França foi invadida pelos alemães, em junho de 1940, aproveitaram-se da debilidade do velho Império Colonial para apropriar-se de suas colônias. A Indochina francesa foi ocupada.

Internamente, a opinião pública era favorável à manutenção do isolacionismo. Os Estados Unidos não deveriam entrar na guerra. Poderosos movimentos de direita se organizaram a favor da política do não envolvimento. Pode-se dizer que somente Roosevelt e seus assessores sabiam que a participação americana no conflito era inevitável. A coesão nacional em torno do governo surgiu quando os japoneses realizaram o surpreendente ataque à base naval de Pearl Harbor, no Hawaii, sede da frota americana no Pacífico. Assim, o dia 7 de dezembro coloca os Estados Unidos diretamente na guerra.
A expansão japonesa é vista com temeridade pelos Estados Unidos. Roosevelt trata de bloquear de todas as maneiras seu crescimento militar e econômico. Seu primeiro passo foi anular os acordos comerciais que mantinha com o império do Sol Nascente. Inicia o embargo de petróleo e de matérias-primas minerais fundamentais para a indústria de guerra japonesa, além de congelar os créditos que o Japão possuía nos Estados Unidos. No campo diplomático, iniciam-se conversões para obter a evacuação dos nipônicos da China e da Indochina - que fracassaram. O estado de guerra tornava-se latente.
Dois dias depois, Roosevelt lê mensagem de guerra
"O verdadeiro objetivo que buscamos situa-se muito acima e além do feio campo de batalha. Quando recorremos à força, como o fazemos agora, estamos resolvidos a que essa força seja dirigida para o bem último, assim como contra o mal imediato. Nós, americanos, não somos destruidores - somos construtores.
Estamos agora no meio de uma guerra, não de conquistas, não de vingança, mas por um mundo no qual esta nação, e tudo quanto esta nação representa, seja preservado para os nossos filhos. Esperamos eliminar o perigo do Japão, mas isto de pouco nos servirá se, conseguindo-o, verificarmos que o resto do mundo está dominado por Hitler e Mussolini.
Vamos vencer a guerra e vamos conquistar a paz que se seguirá. E nas horas escuras deste dia - e através dos dias sombrios que talvez ainda venham -, saberemos que a vasta maioria dos membros da raça humana está do nosso lado. Muitos deles estão lutando conosco. Todos eles estão orando por nós. Pois, representando nossa causa, representamos também a deles - nossa esperança e sua esperança pela liberdade sob Deus."
A expansão japonesa: Ásia e Oceania (1941 - 1942)
O ataque a Pearl Harbor não foi uma operação isolada do alto comando estratégico japonês, mas parte de uma operação mais vasta, que compreendia ataques simultâneos a colônias inglesas, holandesas e americanas. O objetivo desta ofensiva relâmpago era sedimentar posições defensivas para, posteriormente, travar uma guerra de desgaste com Estados Unidos e Grã-Bretanha. Os japoneses sabiam perfeitamente do extraordinário potencial militar que os EUA poderiam mobilizar. Destruindo a esquadra no Pacífico em um ataque surpresa, esperavam ganhar tempo para fixar-se numa área cujo raio fosse o maior possível.
Em janeiro de 1942, lançam a operação de conquista das Filipinas (EUA) e das Índias Holandesas (Indonésia cai sob seu controle em março de 1942). Outra força-tarefa japonesa ocupa Singapura, na Malásia, em fevereiro do mesmo ano. A cidade de Hong-Kong é ocupada em dezembro, enquanto a Birmânia rende-se em abril.
A ofensiva japonesa lhes propicia o controle sobre 95% dos seringais produtores de látex, 90% do quinino, e 70% da produção de arroz e estanho, assim como petróleo, bauxita e cromo, todos fundamentais para sustentar a máquina de guerra. Isso dava ao Japão uma surpreendente capacidade de resistência quando os Estados Unidos iniciam a contraofensiva no segundo semestre de 1942.
REGIÕES CONQUISTADAS PELO JAPÃO
PAÍSESÁREA (EM KM²)POPULAÇÃO (EM MILHÕES)
Birmânia677.95031
China1.500.000237
Coreia220.73552
Filipinas297.37045
Indonésia1.094.345140
Malásia330.40012
Indochina510.80060
TOTAL4.631.000577

Especial para Terra

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sábado, 9 de março de 2013

REVOLUÇÃO INDUSTRIAL


A CLASSE TRABALHADORA NA INGLATERRA EM MEADOS DO SÉCULO XIX

Friedrich Engels

Em 1845 era publicado, em Leipzig, Alemanha, a primeira edição do livro A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra, de autoria de Friedrich Engels (1820-1895), um dos fundadores do materialismo histórico. Embora se trate de uma obra clássica, a primeira edição brasileira foi publicada, integralmente, apenas em 1986, ou seja, pouco mais de 140 anos depois da edição original.

Conforme o próprio Engels afirma, ' 'da primeira à última pá­gina, foi um auto de acusação contra a burguesia inglesa que le­vantei". De fato, a partir da análise do trabalho do autor pode-se perceber as dramáticas condições de vida a que foram relegados os produtores diretos a partir da Revolução Industrial. Despojados de meios próprios de subsistência, os trabalhadores são obrigados, por uma mera questão de sobrevivência, a ingressar no mundo do trabalho em condições, no mínimo, desumanas. Os relatos de Engels, apoiados em farta documentação, nesse caso, falam por si.

A compreensão da situação da classe trabalhadora leva Engels a terminar seu trabalho com uma advertência às classes dominantes: "O abismo que separa as classes cava-se cada vez mais, o espírito de resistência penetra cada vez mais nos operários, a exasperação torna-se mais viva, as escaramuças isoladas na guerrilha concentram-se para se transformar em combates e em manifestações mais importantes, e bastará, em breve, um ligeiro choque para desencadear a avalancha. Então, um verdadeiro grito de guerra ecoará em todo o país: Guerra aos palácios, paz nos casebres!, mas então será muito tarde para que os ricos possam ainda se defender".

Os trechos selecionados revelam, na sua totalidade, em vários aspectos, a extensão do drama dos trabalhadores ingleses do século XIX.

IDADE DOS OPERÁRIOS, PROPORÇÃO HOMENS/MULHERES, CONDIÇÕES DAS CRIANÇAS

Retiraremos do discurso em que, a 15 de março de 1844, Lord Ashley apresentou a sua moção sobre a jornada de 10 horas à Câmara dos Comuns alguns dados que não foram refutados pêlos industriais sobre a idade dos operários e a proporção de homens e mulheres. Estes dados só se aplicam a uma parte da indústria inglesa. Dos 4!9.590  operários  de  fábrica  do  império  britânico   (em   1839), 192.887 (ou seja, quase metade) tinham menos de 18 anos e 242.996 eram do sexo feminino, dos quais 112.192 menores de 18 anos. Segundo estes números, 80.695 operários do sexo masculino têm menos de 18 anos, e 96.599 são adultos, ou seja, 23%, portanto nem sequer um quarto do total.  Nas fábricas de algodão, 56,25% do conjunto do pessoal eram mulheres, 69,5% nas fábricas de lã, 70,5% nas fábricas de sedas e 70,5% nas fiações de linho. Estes números chegam para demonstrar como os trabalhadores adultos do sexo masculino são afastados. Mas basta entrar na fábrica mais próxima para se ver a coisa efetivamente confirmada. O resultado inevitável é a alteração da ordem social existente, que, precisamente porque é imposta, tem consequências muito funestas para os operários. So­bretudo o trabalho das mulheres desagrega completamente a família; porque, quando a mulher passa cotidianamente 12 ou 13 horas na fábrica e o homem também trabalha aí ou em outro emprego, o que acontece às crianças? Crescem, entregues a si próprias como a erva daninha, entregam-nas para serem guardadas fora por um shillíng ou shilling e meio por semana, e podemos imaginar como são tratadas. É por essa razão que se multiplicam de uma maneira alarmante, nos distritos industriais, os acidentes de que as crianças são vítimas por falta de  vigilância.   As listas estabelecidas  pêlos funcionários de Manchester encarregados de verificar os acidentes indicam (segundo o relatório do Fact. Inq. Comm. Rep. ofDr. Hawkins, p. 3): em 9 meses, 69 mortes por queimaduras, 56 por afogamento, 23 em con­sequência de quedas, 67 por causas diversas, num total de 215 aci­dentes mortais, enquanto em Liverpool, que não é uma cidade fabril, houve, em 12 meses apenas, 146 acidentes mortais. Os acidentes nas minas de carvão não são incluídos para estas duas cidades. E preciso notar que o coroner de Manchester não tem autoridade sobre Sal-ford, sendo a população dos dois distritos mais ou menos idêntica. O Manchester Guardian relata em todos os números, ou quase, um ou vários casos de queimaduras. Acontece que a mortalidade geral das crianças também aumenta devido ao trabalho das mães e os fatos atestam-no de maneira alarmante.  As mulheres voltam à fábrica muitas vezes três ou quatro dias após o parto, deixando, bem enten­dido, o recém-nascido em casa. Na hora das refeições correm para casa para amamentar a criança e comer um pouco. Mas pode-se fa­cilmente imaginar em que condições se efetua este aleitamento! Lord Ashley relata as declarações de algumas operárias:

M. H. de 20 anos tem duas crianças, a menor é um bebé e o mais velho toma conta da casa e do irmão; vai para a fábrica de manhã, pouco de­pois das 5 horas, e volta às 8 horas da noite. Durante o dia, o leite cor­re-lhe dos seios a ponto de os vestidos se molharem. H. W. tem três, sai de casa segunda-feira de manhã às 5 horas e só volta sábado às 7 horas da noite. Tem então tantas coisas a fazer para as crianças que não se deita antes das 3 horas da manhã. Acontece-lhe muitas vezes estar molhada até os ossos pela chuva e trabalhar nesse estado. "Os meus seios fizeram-me sofrer horrivelmente e fiquei inun­dada de leite."


O emprego de narcóticos com o fim de, manter as crianças sossegadas não deixa de ser favorecido por este sistema infame e está agora disseminado nos distritos industriais. O Dr. Johns; inspeíor chefe dos distrito de Manchester, é de opinião que este costume é uma das causas principais das convulsões mortais muito frequentes. O trabalho da mulher na fábrica desorganiza inevitavelmente a família, e esta desorganização tem, no estado atual desta sociedade baseada na família, as consequências mais desmoralizantes, tanto para os pais como para as crianças.

AS NOVAS CONDIÇÕES DO TRABALHO E A MORALIDADE

Mas isto não é nada. As consequências morais do trabalho das mulheres nas fábricas ainda são bem piores. A reunião de pessoas dos dois sexos e de todas as idades na mesma oficina, a inevitável promiscuidade que daí resulta, o amontoamento num espaço reduzido de pessoas que não tiveram nem formação intelectual nem moral são fatos de efeito favorável no desenvolvimento do caráter feminino. O industrial, mesmo se presta atenção a isso, não pode intervir senão quando o escândalo é flagrante. Não poderia estar informado da influência permanente, menos evidente, que exercem os caracteres dissolutos sobre os espíritos mais morais e em particular sobre os mais jovens e, por conseguinte, não pode evitá-la. Ora, esta influência é precisamente a mais nefasta. A linguagem empregada na fabrica é, segundo diversas descrições dos comissários de fábricas em 1833, como "inconveniente", "má", "imprópria", etc. A situação é, em menor grau, a que constatamos em grande proporção nas cidades. A concentração da população tem o mesmo efeito sobre as mesmas  pessoas, quer seja numa grande cidade ou numa fábrica relativamente pequena. Se a fábrica é pequena, a promiscuidade é maior e as ligações inevitáveis. As consequências não se fazem esperar. Uma testemunha de Leicester disse que preferia ver a sua fílha mendigar do que deixá-la ir para a fábrica, que a fábrica é um verdadeiro inferno, que a maior parte das mulheres da vida estão naquela situação devido à sua permanência na fábrica. Uma outra em Manchester "não tem nenhum escrúpulo em afirmar que três quartos das jovens operárias de fábrica dos 14 aos 20 anos já não são virgens”. O comissário Cowell emite a opinião de que a moralidade dos operários de fábrica se situa um pouco abaixo da média da classe trabalhadora em geral e o Dr. Hawkins afirma:

É difícil dar uma estimativa numérica da moralidade sexual, mas, tendo em conta as minhas próprias observações, a opinião geral daqueles com quem falei, assim como o teor dos testemunhos que me forneceram, a influência da vida na fábrica sobre a moralidade da juventude feminina parece justificar um ponto de vista bastante pessimista.

Acontece que a servidão da fábrica, como qualquer outra e mesmo mais que todas as outras, confere ao patrão o Jus primae noctis. Deste modo o industrial é também o dono do corpo e dos en­cantos das suas operárias. A ameaça de demissão é uma razão sufi­ciente para, em 90 ou 99% dos casos, anular qualquer resistência da parte das jovens que, além disso, não têm disposições particulares para a castidade. Se o industrial é suficientemente infame (e o rela­tório da comissão cita vários casos deste género), a sua fábrica é ao mesmo tempo o seu harém. O fato de nem todos os industriais faze­rem uso do seu direito não altera nada a situação das moças. Nos princípios da indústria manufatureira, na época em que a maior parte dos industriais eram novos ricos sem educação que só respeitavam as regras da hipocrisia social, não abandonavam por nada o exercí­cio dos seus direitos adquiridos.

AS CONDIÇÕES DO TRABALHO INFANTIL

A elevada mortalidade que se verifica entre os filhos dos ope­rários, e particularmente dos operários de fábrica, é uma prova sufi­ciente da insalubridade à qual estão expostos durante os primeiros anos. Estas causas também atuam sobre as crianças que sobrevivem, mas evidentemente os seus efeitos são um pouco mais atenuados do que naquelas que são suas vítimas. Nos casos mais benignos, têm uma predisposição para a doença ou um atraso no desenvolvimento e, por consequência, um vigor físico inferior ao normal. O filho de um operário, que cresceu na miséria, entre as privações e as vicissi­tudes da existência, na umidade, no frio e com falta de roupas, aos nove anos está longe de ter a capacidade de trabalho de uma criança criada em boas condições de higiene. Com esta idade é enviado para a fábrica, e aí trabalha diariamente seis horas e meia (anteriormente oito horas, e outrora de doze a catorze horas, e mesmo desesseis) até a idade de treze anos. A partir deste momento, até os dezoito anos, trabalha doze horas. Aos fatores de enfraquecimento que persistem junta-se também o trabalho. E verdade que não podemos negar que uma criança de nove anos, mesmo filha de um operário, possa su­portar um trabalho cotidiano de seis horas e mais sem que daí resultem para o seu desenvolvimento efeitos nefastos visíveis, de que este trabalho seria a causa evidente. Mas temos que confessar que a per­manência na atmosfera da fábrica, sufocante, tímida, por vezes de um calor morno, não poderia em qualquer dos casos melhorar a sua saúde. De qualquer maneira, é dar prova de irresponsabilidade sacrificar à cupidez de uma burguesia insensível os anos de vida das crianças, que deveriam ser exclusivamente consagrados ao desenvolvimento físico e intelectual, e privar as crianças da escola e do ar puro para as explorar em proveito dos senhores industriais. Claro, a burguesia diz-nos: "Se não empregarmos as crianças nas fábricas, elas ficarão em condições de vida desfavoráveis ao seu desenvolvimento", e no conjunto este fato é verdadeiro. Mas que significa este argumento, posto no seu justo lugar, senão que a burguesia coloca primeiro os filhos dos operários em más condições de existência e que explora em seguida estas más condições em seu proveito? Ela evoca um fato de que é tão culpada como do sistema industrial, justificando a falta que comete hoje com aquela que cometeu ontem. Se a lei sobre as fábricas não lhes prendesse um pouco as mãos, verificaríamos como estes burgueses "bondosos" e “humanos", que no fundo não edificaram as fábricas senão para o bem dos operários, tomariam a defesa dos interesses dos trabalhadores. Vejamos um pouco como eles agiram antes de serem vigiados pelos inspetores de fábrica! O seu próprio testemunho, o relatório do  Factories Inquiry Commission, de 1833, deve confundi-los.

O relatório da Comissão Central constata que os fabricantes raramente empregavam crianças de cinco anos, frequentemente as de seis anos, muitas vezes as de sete anos e a maior parte das vezes as de oito ou nove anos; que a duração do trabalho atingia, por vezes, 14 a 16 horas por dia (não incluindo as horas das refeições), que os industriais toleravam que os vigilantes batessem e maltratassem as crianças, e eles próprios agiam muitas vezes do mesmo modo; relatassem mesmo o caso de um industrial escocês que perseguiu a cavalo um operário de dezesseis anos, que fugira, trouxe-o de volta obrigando-o a correr diante dele à velocidade do seu cavalo no trote, batendo-lhe continuamente com um grande chicote. Nas grandes cidades, onde os operários mais resistiam, é verdade que tais casos eram menos frequentes. No entanto, mesmo esta longa jornada de trabalho não aplacava a voracidade dos capitalistas. Era preciso por todos os meios fazer com que o capital investido nas construções e maquinas fosse rentável, era necessário fazê-lo trabalhar o mais possível. É por isso que os industriais introduziram o escandaloso sistema de trabalho noturno. Em algumas fábricas havia duas equipes de operários,  cada qual  suficientemente  numerosa para fazer funcionar toda a fábrica; uma trabalhava as doze horas do dia, a outra as doze horas da noite. Não é difícil imaginar as consequências que fatalmente teriam sobre o estado físico das crianças, e mesmo dos adolescentes e adultos, esta privação permanente do repouso noturno, que nenhum sono diurno poderia substituir. Sobre excitação do sistema nervoso ligada a um enfraquecimento e a um esgotamento de todo o corpo, tais eram as consequências inevitáveis.

Engels, Friedrich. A Situação da Classe Trabalhadora na Inglater­ra. São Paulo, Global, 1986, pp. 165-6, 170-1 e 172-4.
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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Sócrates e a Democracia Grega



Este artigo é de total responsabilidade do autor e foi escrito por André Rodrigues, historiador, coordenador do curso de licenciatura em História da UNIBAN/ANHANGUERA e editor do blog História em Perspectiva. 
A Construção do regime democrático e a contribuição intelectual de SÓCRATES – “o pai dafilosofia”
O século V a.C. foi definido pelos historiadores como “O Século de Ouro” – e realmente foi um período de grandiosas realizações. No campo militar, ocorreram as famosas “Guerras Médicas” (499 – 449 a.C.) entre os Persas de Dario I e Xerxes. Essas campanhas militares, desde o historiador Heródoto, foram cantadas como a vitória da civilização contra a barbárie, do Ocidente sobre o Oriente. Era o pequeno exército grego de homens livres, ordenado pela astúcia da razão democrática, que vencia o exército persa, constituído por uma imensa multidão de servos e escravos.
Ágora e a democracia grega
Do ponto de vista da produção do conhecimento desse período, destacam-se três filósofos: Sócrates, Platão e Aristóteles. Todos eles viveram em Atenas, pelo menos durante o período central de sua produção, e foram autores de obras que influenciaram não apenas o momento histórico em que viveram, mas também o próprio desenvolvimento da Filosofia e da Ciência. A preocupação desses filósofos era trazer para o centro de suas indagações o HOMEM como ser capaz de produzir conhecimento através do desenvolvimento de sua Moral. Acreditavam, portanto, que o Conhecimento – a Filosofia – tinha uma função social, e por isso, consistia na formação de cidadãos como tarefa indispensável para a transformação da sociedade.
Após a vitória sobre os Persas, a democracia ateniense – fundada após as reformas dos legisladores Drákon (621 a.C.), Sólon (594 a.C) e Clístenes (521 a.C.) – foi finalmente consolidada e fez de Atenas o “berço do regime democrático”. Desenvolveram-se e praticaram-se as principais formas representativas de poder político: a Assembleia popular reunida em praça pública; as eleições diretas; os Conselhos e também as Magistraturas exercidas alternadamente por todos os cidadãos.
Derivadas das experiências das polis (“cidade” em grego), surgiram não somente nossa palavra “política”, como também as nossas práticas eleitorais, a escolha de representantes, o costume de consultar a todos os cidadãos nas questões mais importantes, a concepção de que existem decisões e poderes que são legítimos e outros ilegítimos, etc.
A democracia ateniense estava, dessa maneira, no centro de todas as grandes realizações desse período. O poder era exercido por Conselhos e Magistrados eleitos anualmente, diretamente ou por sorteio. O poder mais alto era a Assembleia popular, organizada por meio de votações realizadas com o erguimento das mãos, logicamente destinado àqueles que tinham a habilidade e a oralidade bem desenvoltas, como no caso específico dos “Eupátridas” (os bem nascidos), a classe dos aristocratas que tinham acesso ao conhecimento. Os “georgói” (pequenos proprietários) e os “Thetas” (artesãos e marginalizados) podiam participar das decisões, mas muitas vezes eram manipulados.
Podemos perceber, portanto, que havia uma grande contradição no regime democrático dos atenienses. O poder não era exercido pelo povo como entendemos na etimologia da palavra “DEMOKRATÓS”, e sim por uma pequena porcentagem da população. A grande maioria da população, composta de Metecos (comerciantes estrangeiros), mulheres e escravos, estava absolutamente destituída do poder político e da participação na Assembleia.
Portanto, pode-se dizer que, paradoxalmente, se a democracia ateniense inventou a liberdade, inventou também o modo de produção escravista clássico, que iria perdurar por toda a Antiguidade.
Essa contradição no regime democrático talvez nos explique o julgamento e execução de Sócrates, em 399 a.C., que foi acusado de corromper a juventude ateniense e de introduzir o culto a novos deuses. Conforme relataram os seus contemporâneos (principalmente Platão), ao retirar-se do tribunal, o filósofo ironicamente disse aos seus juízes que o condenaram à amargura da cicuta (o veneno que tirou-lhe a vida): “Chegou a hora de separar-me de vós e de irmos, eu a morrer e vós a viver. Quem leva a melhor parte? Vós ou eu?”
Logicamente Sócrates levou a melhor parte quando pensamos na produção do pensamento filosófico. Mesmo sem escrever uma única obra, sua contribuição para o entendimento do homem (como ser cognoscível) e seu relacionamento com a vida política, suas preocupações e a construção de sua moralidade, representam para a posteridade a evolução do pensamento político e da Filosofia.
A política na Grécia Antiga era inseparável das reflexões filosóficas. Compreendemos melhor a construção e a evolução da maneira do homem compreender e questionar o mundo ao analisar as relações históricas que os gregos “legítimos” construíam na Polis, nas diversas discussões na Ágora. Sócrates foi, sem rival, o catalisador da mudança que colocou o homem no centro da investigação filosófica, “Conhece-te a ti mesmo”, dissera o Oráculo de Delfos, e Sócrates apropriou-se dessa máxima, multiplicando-a numa série de ideias.
Nascido em Atenas entre 470 e 469 a.C. – filho de um escultor, Sofronisco, e de uma parteira, Fenareta –, Sócrates viveu o início da fase áurea da democracia ateniense. Teria seguido, durante algum tempo, a profissão paterna e é provável que tenha recebido a educação dos jovens atenienses de seu tempo, aprendendo música, ginástica e gramática. Além disso, beneficiou-se da própria atmosfera cultural da época. Atenas era, no seu tempo, um ponto de convergência cultural e um laboratório de experiências políticas, onde se firmara, pela primeira vez na história dos povos, a tentativa de um governo democrático, exercido diretamente por todos os que usufruíam do direito de cidadania.  
Sócrates acreditava que a alma humana é a sede de sua faculdade racional, o fator essencial que distingue o homem dos animais. Mas a alma possui também um elemento irracional e, para o homem, o grande problema é tornar-se verdadeiramente humano, isto é, permitir que o elemento racional domine e controle o outro, pois nada disso tem sentido com o isolamento. A sabedoria e a bondade só são verdadeiramente possíveis onde existe uma relação, por um lado, entre o homem e o homem e, por outro, entre o homem e o eterno. Daí o fato de o amor, a amizade, a piedade, a imortalidade e, sobretudo, a justiça, se encontrarem entre os temas relevantes dos diálogos de Sócrates.
Dessa forma, Sócrates obrigava os atenienses a repensarem as suas imagens de belo e de bom, de justo e de injusto, de vida feliz, de ideal de cidade. Assim como desde sua juventude abalara as próprias certezas, sempre repetindo que apenas sabia que nada sabia, abalava também as certezas de todos, pobres ou ricos, homens livres ou escravos, artesãos, políticos, prostitutas, sofistas ou juízes. Todos diante de Sócrates eram obrigados a repensar os seus fins.
A grande contribuição de Sócrates não está na discussão política e suas contradições, nem na ideia de que a política e a justiça devem estar ligadas, mas sim no modo radical e sistemático de análise dos problemas e na perseverante insistência de que a política (e todo o comportamento) tem de ser orientada racionalmente e julgada por normas éticas absolutas.
Dessa forma, está inserido “no Olimpo” como um dos grandes educadores da antiguidade, tendo sido responsável pela elaboração de uma metodologia de ensino voltada a “parir” o “verdadeiro bem” daqueles que o acompanhavam: por intermédio da ironia e da maiêutica, levava os seus discípulos ao reconhecimento de seu grau de ignorância e os incentivava a buscar em si mesmos os melhores conceitos e direcionamentos para a vida na Pólis. É possível arriscar que Sócrates buscava sempre retirar os homens de seu tempo do “senso comum” e encaminhá-los em direção à razão.
Assim, quando em 399 a.C. a democracia condena-o à morte, ela se defende de um filósofo revolucionário. Falharam assim, sem dúvida, os seus juízes, e provaram a ironia da dialética ao receitarem a Sócrates a amargura da cicuta. Ele, no entanto, certamente levou a melhor parte.
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terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

A Escola e o Tempo

Autor: Ricardo Viana

              O tempo sempre foi ao longo da história objeto de fascínio humano, transformando-se e adaptando-se as necessidades de cada época. Na antiguidade o tempo era o tempo rural, diretamente ligado à natureza regulava os fazeres diários conforme o sol nascia, em algumas sociedades era associado aos deuses e tinha suas características próprias. Na modernidade e na contemporaneidade, o tempo passou a regular de forma mais cruel o homem, principalmente após a revolução industrial em que o tempo passou a ser medido mecanicamente através do relógio e depois com o meio de produção conhecido como “fordismo“.

            Esse modelo de tempo cronológico dominador e implacável é o tempo que conhecemos hoje, é ele que nos direciona e nos conduz todos os dias ao acordarmos do descanso necessário. Hoje temos necessidades e objetivos diversos e diferentes das épocas antigas, mas continuamos (talvez até mais que antes) presos ao tempo, principalmente dos afazeres externos.

            A escola como ambiente inserido nesse modelo tem o tempo cronológico como um amigo e ao mesmo tempo um inimigo na sua função máxima de formar cidadãos. Inimigo, quando fica preso a burocracias sem reflexões, relatórios estafantes, grade curricular desconexa com o tempo do aluno, disciplinas fragmentadas sem ligação entre si e portanto, sem sentido real. E amiga, quando utiliza deste mesmo tempo para disciplinar, representar e apresentar o mundo aos alunos, com todas as suas demandas de obrigações e compromissos que o mundo “globalizado” assim exige.

            No entanto, só essa representação e apresentação do mundo não é suficiente para a formação integral do aluno, é necessário fazê-lo perceber a dimensão e importância que esse tempo tem para a sociedade e suas conseqüências no seu dia a dia, é importante também a exemplificação do tempo vivido, sentido e intensificado pelas relações de companheirismo, fraternidade, respeito e da intensidade dos atos e atitudes, que conduzem a um aprendizado medido e avaliado dentro de processos históricos da vida de cada um deles.

            Fazer isso acontecer não é fácil, temos algumas formulas que se bem utilizadas podem aproximar-se destes objetivos que são: os eixos temáticos, projetos interdisciplinares, a transdisciplinaridade, a utilização de novas tecnologias e a administração mais eficaz do tempo das atividades e trabalhos desenvolvidos dentro da sala de aula.  
Postado por Ricardo Viana às terça-feira, fevereiro 12, 2013 Nenhum comentário:
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segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Brasileiro é indicado a prêmio de melhor professor dos EUA

Fonte: Terra
  • Alexandre Lopes trabalha com um programa de inclusão para crianças com autismo em sala de aula Foto: Macy's/Divulgação
Alexandre Lopes trabalha com um programa de inclusão para crianças com autismo em sala de aula
Foto: Macy's/Divulgação


Um brasileiro foi indicado para o prêmio de melhor professor dos Estados Unidos. Em 2012, Alexandre Lopes já havia ganhado a premiação de melhor professor da Flórida. Nesta quinta-feira, um conselho de educação americano anunciou os quatro finalistas da premiação nacional - com Lopes entre eles. O vencedor será anunciado em abril e o prêmio será entregue pelo presidente americano, Barack Obama, na Casa Branca.

Durante as fases anteriores, cada Estado escolheu seu participante na competição. Então o conselho entrevistou os professores pessoalmente e decidiu quais seriam os finalistas. Lopes é formado em produção editorial pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e mestre em educação pela Universidade de Miami. Atualmente, busca o doutorado na Universidade Internacional da Flórida, Estado no qual leciona.
Lopes dá aulas no pré-primário e lidera um projeto chamado "Learning Experience: Alternative Program" (A Experiência de Aprender - Programa Alternativo, em tradução livre), conhecido como Leap. Em seu método, ele utiliza danças e músicas para se comunicar com as crianças. Grande parte de seus alunos é autista ou não consegue falar.
Postado por Ricardo Viana às segunda-feira, janeiro 21, 2013 Nenhum comentário:
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